domingo, 8 de março de 2009

Artigo:

Igualdade de gêneros já não é um sonho distante


Não foi desta vez que o país mais poderoso do planeta elegeu uma comandante-em-chefe. Como consolo, fica a certeza de que elas, as mulheres, bateram na trave, o que não deve ser uma das metáforas que mais lhes agradam. Ainda: tendo em vista que a pedra no caminho de Hillary Clinton para a Casa Branca nem chegou a ser John McCain, mas atendia pelo nome de Barack Obama, pode-se dizer que perderam para um pré-candidato e candidato “our concour”. Como lamento, ou melhor, como lamento um tanto machista -- mas otimista -- fica a certeza de que Bill Clinton seria um pioneiro, e desde já o mais divertido primeiro-marido de uma longa história que está por vir, a da alternância de gênero no mais importante cargo político do mundo, além da habitual alternância entre democratas boa praça e caubóis republicanos.
 
Otimismo, não; realismo. Ainda não aconteceu de uma mulher se tornar presidente dos EUA, mas parece ser apenas uma questão de (pouco) tempo, seja ela branca ou negra, ao que tudo indica. A própria Hillary Clinton já é a terceira mulher a ocupar o cargo para lá de estratégico de secretária de Estado, depois de Madeleine Albright e Condoleezza Rice, e Obama acaba de nomear uma mulher, a governadora do Kansas, Kathleen Sebelius, para desatar o que tavez seja o maior nó do seu governo: a democratização do sistema de saúde norte-americano.
 
Talvez a cena de uma hispânica -- ou hispânico, por que não? -- despachando no salão oval da Casa Branca seja uma realidade ainda distante, mas os tabus estão aí para serem quebrados, um de cada vez. Veja o caso da Islândia, que derrubou um governo machão, conservador e incompetente, e o substituiu por outro comandado por uma mulher, homossexual assumida, que tem a missão de tirar o país do atoleiro em que se meteu e no qual foi metido pela crise financeira internacional. É claro que o fato de a senhora Jóhanna Siguroardóttir ser casada com uma mulher não a habilita a fazer milagre algum, mas que não a desabilite perante a opinião pública é um fato cujo significado ainda está para ser compreendido em sua plenitude.
 
Em matéria de política, as mulheres nunca estiveram tão fortes, até porque sua maior participação no poder em todo o mundo vem sendo lenta, sim, mas também contínua e inexorável, o que já é visível na realidade de hoje.
 
Em Israel, país de Golda Meir, a formação do novo governo depende da aprovação de Tzipi Livni, a poderosa líder do partido Kadima.
 
No Reino Unido de Margaret Thatcher, o atual primeiro-ministro é homem, mas é às mulheres que Gordon Brown vem recorrendo para tentar minimizar os estragos que a crise irá causar na economia britânica: sua assessora para assuntos econômicos Shriti Vadera, a ministra do Tesouro, Yvette Cooper, e a nova comissária europeia do Comércio, Catherine Ashton.
 
Na França, em 2007, Ségolène Royal arrancou sua candidatura presidencial praticamente na marra dos barões machistas do Partido Socialista francês, e foi derrotada no segundo turno por Nicolas Sarkozy apenas um ano antes do centenário de nascimento da francesa que virou sinônimo de feminismo, Simone de Beauvoir. Na França, aliás, quem dirige a mais poderosa entidade patronal do país, o Medef (Movimento das Empresas da França), é uma mulher, Laurence Parisot.
 
Já a chanceler alemã Angela Merkel encabeça pela terceira vez consecutiva a lista das cem mulheres mais poderosas do mundo elaborada pela revista Forbes.
 
Na Arábia Saudita, único país do mundo onde as mulheres sequer podem dirigir, o octogenário rei Abdullah Bin Abdul Aziz surpreendeu seus súditos ao nomear pela primeira vez uma mulher para compor o governo do país. Norah Al Fayez, uma socióloga de 54 anos, é a nova ministra-adjunta saudita da Educação. E não se engane com a palavra “adjunta”! É um fato histórico, carregado de um simbolismo tal que já há quem vislumbre no horizonte a revogação da lei do guardião, aquela segundo a qual as mulheres não podem andar sozinhas nas ruas, nem tampouco com as próprias pernas para tomar o rumo quem bem entenderem na vida. Houve assombro ainda maior nas arábias quando Norah apareceu maquiada e com o rosto descoberto na capa da versão saudita do Financial Times.
 
Na América Latina, a argentina Cristina Kirchner e a chilena Michele Bachelet -- e talvez Dilma Rousseff a partir de 2011 -- vêm dando sequência às presidências femininas na região, que antes delas foram quatro: Mireya Moscoso (1999-2004), no Panamá; Violeta Chamorro (1990-1997), na Nicarágua; Lidia Gueiler (1979-1980), na Bolívia; e Evita Perón (1974-1976), na Argentina. E lá se vão 20 anos desde que a maior cidade da América Latina, São Paulo, elegeu pela primeira vez uma prefeita, Luiza Erundina.
 
No Brasil, desde meados dos anos 1990 existe uma cota de gênero na política nacional. Nas chapas organizadas por cada partido visando a disputa de eleições proporcionais, pelo menos 30% dos candidatos têm que ser candidatas. A rigor, e na prática, trata-se de uma recomendação, uma vez que não há punição alguma para a legenda que não cumprir a norma. Ainda assim, e apesar de as feministas em geral exigirem igualdade absoluta, ou seja, uma cota de 50%, especialistas consideram que já há um grande e inegável avanço, tendo em vista toda nossa herança patriarcal.
 
O sistema de cotas para mulheres na política é um instrumento juridicamente consolidado em vários países da Europa, África e América Latina, e isto pode refletir um anseio já enraizado na sociedade: Uma pesquisa realizada no Brasil pouco antes das eleições de 2008, por exemplo, mostrou que para 58% do eleitorado a participação da mulher na política ''é menor do que deveria ser'', e para 67% o nível da política seria melhor se a participação das mulheres fosse maior. A grande maioria considera que as mulheres são mais honestas e mais competentes que os homens, e 69% dos eleitores declararam que votariam em uma mulher para presidente da República.
 
Apesar de tudo isto, nas eleições municipais do ano passado as mulheres representaram apenas 21,27% dos candidatos a prefeito em todo o país, e 21,57% dos candidatos a vereador. Entre os prefeitos eleitos, a proporção de mulheres cai para 9,8%, o que mesmo assim é um aumento de 1,56% em relação às eleições municipais de 2004. No ano passado, em 41 municípios brasileiros só mulheres concorreram à chefia do executivo local.
 
Mas ainda há muito o que caminhar. Entre os 192 países analisados pela União Parlamentar Internacional (UPI) para a elaboração do Mapa das Mulheres na Política 2008, o Brasil amargou uma constrangedora 146ª posição no ranking mundial de participação feminina em casas legislativas, ficando atrás de países como Albânia, Jordânia, Mongólia e Haiti. Como atenuante, só o fato de que igualdade mesmo entre os gêneros nas câmaras e nos senados (de 40 a 50% de parlamentares mulheres) existe em apenas quatro países: Ruanda, Suécia, Finlândia e Argentina. Em Ruanda, na verdade, a proporção de mulheres no parlamento já ultrapassou a de homens, chegando a 55%.
 
Entre os chefes de Estado ao redor do planeta, em 1º de janeiro de 2008 apenas 4,7% deles eram mulheres. Entre os chefes de governo, só 4,2%. A última edição do Mapa das Mulheres na Política mostra ainda que existe uma espécie de reserva de determinados ministérios para as mulheres que segue um padrão em todo o mundo. As pastas entregues aos cuidados das mulheres com cargos ministeriais tendem a ser relacionadas às atividades que no imaginário popular são ligadas ao sexo feminino, como assistência social e educação. Por outro lado, em todo o mundo existe apenas seis ministras da Defesa. Uma delas é a catalã Carme Chacon, cuja imagem passando as tropas espanholas em revista com uma barriguinha de sete meses de gravidez já se tornou iconoclástica.
 
Está lá na Declaração Universal sobre a Democracia: “O êxito da democracia supõe uma autêntica associação entre homens e mulheres para o bom andamento dos assuntos públicos, de modo que tanto os homens quanto as mulheres atuem em igualdade e complementariedade, obtendo um reconhecimento mútuo a partir de suas diferenças”.

Quando o fato de uma mulher alcançar um posto importante deixar de ser uma notícia sobre a guerra dos sexos, aí sim o ideal da igualdade entre os gêneros terá se realizado na prática. Talvez então o maior desafio do feminismo seja o de combater o “mito da boa dirigente”, segundo o qual as mulheres exercem melhor o poder em virtude de sua sensibilidade, amabilidade e que tais. Além disso, neste dia as próprias mulheres poderão parar de pedir o voto por gênero às distintas eleitoras.
 
Margaret Thatcher disse certa vez: “Estar no poder é como ser uma dama. Se tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é”. Palavras da “dama de ferro”.
 

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