segunda-feira, 20 de abril de 2009

Mensagem: As Chamas de Almas Mortas



Imagem capturada da Internet


Eu já havia lido e salvo em arquivo a poesia "As Chamas de Almas Mortas", mas não lembrava onde este se encontrava (preciso me organizar melhor). Acho-a pertinente no momento e, embora ela retrate um fato passado que, inclusive, foi bastante cruel e covarde com o índio Galdino, as relações humanas insânias, a violência e a discriminação cultural - ainda - vigentes em nossa sociedade moderna confere à necessidade de tratarmos estes casos e valores mais humanos. Se é que, nestes casos, ainda, nos achemos dignos de sermos chamados de humanos...

A poesia referencia o índio Galdino, que covardemente foi morto por jovens de classe média a alta de Brasília.

Como muitos alunos meus se encontram na faixa etária de 10 a 15 anos, a maior parte desconhece ou não lembra da referida barbárie, que ocorreu há 12 anos.
Em razão disso, junto com a poesia de autoria de Juscelino Vieira Mendes (advogado, poeta e neto de índia pataxó), vou relembrar, primeiramente,o caso do índio Galdino.

Na manhã do dia 20 de abril de 1997, o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos (índio Galdino, como era mais conhecido), na época com 44 anos, dormia em uma parade ônibus na Asa Sul, bairro nobre de Brasília, quando acordou com o corpo em chamas.

Eram cinco horas da manhã. Socorrido por algumas pessoas, enquanto o grupo responsável pelo atentado fugira, este foi levado ao Hospital Regional da Asa Norte, com queimaduras em 95% do corpo e completmente cego devido as lesões nas córneas pelo fogo. Consciente, embora em estado grave, ele não conseguia entender a razão do ato desumano a qual foi vítima.
Entrou em coma. Com o comprometimento dos seus órgãos devido a gravidade das queimaduras, Galdino não resistiu e veio a falecer no dia seguinte, às 02:00 horas da madrugada.

Graças a um jovem que, no momento do socorro e da fuga dos criminosos, anotou o número da placa do carro dos mesmos, a polícia conseguiu identificar cada um deles.

A atrocidade fora cometida por cinco jovens de classe média alta, de Brasília, com idades variando de 16 a 19 anos, os quais se portaram e justificaram as ações como mera "brincadeira".

Um deles, Antônio Novely Cardoso de Vilanova (19 anos), era filho de um Juiz Federal; Max Rogério Alves (19 anos) era enteado de um ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE); Tomás Oliveira de Almeida (18 anos) era o único universitário (cursava Administração); Gutemberg de Almeida, irmão de Tomás, era menor na época, com 16 anos, cursava o Supletivo e Eron Chaves de Oliveira (19 anos), primo dos irmãos Tomás e Gutemberg.

Após depoimentos ficou constatado que foi Eron Chaves quem ateou o álcool no corpo de Galdino, com ajuda do menor Gutemberg de Almeida; Antônio Novely e Tomás Almeida atiraram os fósforos acesos sobre o índio e Max Rogério assumiu que dirigiu o carro em fuga.

Estes foram presos, no entanto, logo depois obtiveram o direito ao regime semi-aberto, que lhes permitia trabalhar e estudar nos períodos da manhã e da tarde, com retorno às celas, à noite.

Após serem flagrados pela equipe jornalística e denunciados em matéria pelo "Correio Braziliense" que, três dos cinco rapazes estavam bebendo cerveja em um bar, namorando e dirigindo o próprio carro até o presídio, sem serem submetidos a qualquer tipo de revista, estes perderam, temporariamente, o direito ao regime semi-aberto.

Contudo, a penalidade durou pouco e, em agosto de 2004, eles ganharam a condicional, ficando livres, mas tendo que seguir determinadas regras de comportamento, tais como não sair do Distrito Federal sem autorização da Justiça e, periodicamente, comunicar sua atividade profissional ao juiz.

Como era de se esperar (infelizmente), o jogo de influências e de poder político das classes sociais envolvidas foi capaz de assegurar benefícios aos assassinos do índio Galdino, sob a aprovação da Justiça, para a indignação do sociedade brasileira e, em especial, dos pataxós e todos os outros povos indígenas.

O índio Galdino era conselheiro em sua aldeia. Ele havia ido a Brasília no dia 17 de abril, como membro integrante da delegação com oito lideranças de seu povo (índios pataxó Hã-Hã-Hãe, do sul da Bahia).

Estava agendado que, a partir do dia 22 de abril, ele, acompanhado pela Assessoria Jurídica do Secretariado Nacional do Cimi, iria participar de reuniões com procuradores da República, parlamentares e membros do alto escalão do Ministério da Justiça e da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Tal agenda foi abreviada com a sua morte e o retorno do seu corpo para sua aldeia, localizada entre os municípios de Camacã, Itaju do Colônia e Pau Brasil, no sul da Bahia.



As Chamas de Almas Mortas
(Para Galdino Jesus dos Santos)

In Memorian

As chamas de almas mortas
Se movem. Mais um índio cai inerte
Envolto pelas flamas ignotas
De um desdenhar que perverte.

Almas que se ocultam entre chamas
Para destilar ódio, amargura, desdém
E, surdas, em suas tramas,
Não escutam um ser considerado ninguém.

Em meio àquelas labaredas, terminal
De sonhos, esperanças, calor...
De madrugada seca e infernal
Tudo vira tocha em macabro ardor.

(Vislumbramos a solidão do deserto
Que há em todos nós, que navegamos
Em mar vermelho e incerto
De tubarões gélidos que encontramos.)

Era um Pataxó que quisera ser
Mendigo de suas próprias heranças
Destronado que fora dos sonhos de ter
Suas matas, habitadas de lembranças.

Recebeu sua parte comendo o pão
Buscado sob mesas fartas,
O seu pedaço de chão:
Em chamas, à semelhança de suas matas

Fonte: Mendes, Juscelino V. – As Chamas de Almas Mortas. Página de Juscelino Vieira Mendes, seção "Poesia". Sítio http://planeta.terra.com.br/arte/juscelinom




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