sábado, 4 de abril de 2009

Texto n°3: Litoral Brasileiro não escapa das previsões de inundações no Mundo
Daniele Carvalho e Fabíola Leoni
22/03/2009
 
 
O derretimento das camadas de gelo, que reduz a ação gravitacional sobre os oceanos, fazendo com que a água se espalhe; e o leito rochoso da Antártica sob pressão de toneladas de icebergs. Estes são alguns dos motivos que colaboram para a elevação do nível do mar em meio ao aquecimento global. Em 2007, o Painel Intergovernamental da ONU sobre a Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês) previu que as mudanças climáticas causariam uma elevação de 18 a 59 centímetros neste século. De acordo com as últimas pesquisas, publicadas na revista "Science", o nível oceânico pode aumentar até 6,4 metros em algumas áreas do planeta até 2100. As cidades de Londres, Nova Iorque e Alexandria, por exemplo, sofreriam sérias inundações. Países insulares, como as Maldivas, no Oceano Índico, e Tuvalu, no Pacífico Sul, podem desaparecer. Mas, como fica o Brasil e sua extensa região litorânea diante de tantas previsões?
 
O Ministério do Meio Ambiente realizou estudos entre 2004 e 2006 sobre Mudanças Climáticas e seus Efeitos na Biodiversidade Brasileira, que revelam que a elevação do nível do mar poderá atingir 42 milhões de brasileiros que vivem no litoral. Estima-se que 40% das praias do país sejam mais vulneráveis ao avanço gradual do mar. O quadro é preocupante: o aumento da temperatura média até 2100 pode chegar a até 8°C na área da Floresta Amazônica, e os moradores da região litorânea do país serão os mais prejudicados.

De acordo com o geógrafo e diretor do Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente (Nima) da PUC-Rio, Luiz Felipe Guanaes Rego, deve haver um planejamento estratégico e, assim, soluções serão geradas para evitar problemas. "Não temos noção se será um aumento de 15 centímetros ou um metro e meio do nível do mar. São apenas projeções. O que deve ser feito é a modelação de diferentes possibilidades para ajudar as áreas mais frágeis." O tamanho do impacto a ser causado, portanto, depende de quanto crescerá o nível do mar.

O Rio de Janeiro é uma das cidades brasileiras mais vulneráveis, segundo a pesquisa do Ministério. Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostram que a cidade de Macaé, no litoral Norte Fluminense, sofreu um avanço de 15cm no nível do mar, até 2007, em um espaço de cinco anos. Mas, segundo o IBGE, além de todos os efeitos climáticos, a elevação exagerada na região acontece porque o chão está cedendo, dando espaço para a água se deslocar aos poucos sobre as margens da cidade, o que não seria culpa do aquecimento global ou da elevação do nível do mar exclusivamente.
 
Luiz Felipe Guanaes Rego diz que no Rio de Janeiro existe um estudo do Instituto Pereira Passos, vinculado à Prefeitura, para avaliar o que poderia acontecer em alguns cenários da cidade. Segundo ele, a Baixada Fluminense, por exemplo, seria um local que poderia ser mais afetado por problemas. "Caxias está um metro e meio abaixo do nível do mar. Mas tudo realmente depende da topografia local", observa o geógrafo, que afirma que todo o litoral brasileiro deve possivelmente sofrer consequências.
 
Segundo dados do IBGE, Pernambuco é um dos estados mais suscetíveis à erosão. Cerca de seis em cada dez praias da costa do estado têm tido a área reduzida. Em toda a região Nordeste, praias podem ser afetadas caso haja uma elevação de 50 centímetros no nível do Oceano Atlântico. Outro estudo do IBGE, feito a partir de observações na estação de monitoramento localizada em Imbituba, Santa Catarina, registrou uma elevação de 1cm entre dezembro de 2001 e dezembro de 2006. Tudo indica que Imbituba também foi vítima do aquecimento global e que a tendência de elevação anual no litoral catarinense, segundo o IBGE, é de 2,5mm. Um valor teoricamente baixo, mas que ao longo dos anos pode causar grandes estragos.
 
Todos esses estudos, tanto do IBGE quanto do Ministério do Meio Ambiente, implicam em uma mudança de comportamento da sociedade. Segundo o geógrafo Luiz Felipe, "o problema está acontecendo e vai continuar." Além disso, o diretor do Nima da PUC-Rio afirma que a primeira questão dos estudos é ver o problema real em cada cidade. Dessa forma, de acordo com as conclusões, podem ser colocadas em prática algumas soluções, como, por exemplo, a remoção de pessoas de um determinado lugar, ou mesmo a criação de diques.
 
O aumento do nível do mar, diante das mudanças climáticas, depende da dinâmica da sociedade e da ação de todos no planeta. No entanto, na opinião de Luiz Felipe, as pessoas consomem demais, usam carro demais e criam uma relação utilitarista com a natureza. "Nós somos o câncer do mundo. O crescimento incontrolável de uma célula de um organismo maior. A gente está vivendo e comendo tudo na natureza. É como se um pescador, dentro de seu barco, começasse a fazer lenha com a madeira da própria embarcação. Ou seja, ele vai se afogar", afirma o especialista. O diretor do Nima observa, por outro lado, que as novas gerações estão cada vez mais conscientes.
 
O geógrafo afirma que a natureza não tem lixo. "O lixo é uma invenção humana. Tudo se recicla, se transforma. O ser humano não percebe os serviços que a natureza presta à vida de forma geral." Para ilustrar a ideia, Luiz Felipe Rego analisou que toda catástrofe ambiental que o homem gerar acabará afetando ele próprio. "O homem um dia achou que a Terra era o centro do Universo. Depois, concluiu que o sol ocupava esse lugar. Hoje o ser humano se coloca no centro, se acha melhor do que uma formiga e isso não é verdade. É tudo um único sistema. Daqui a uns dois milhões de anos, tudo voltará ao normal, e sem a gente".

Fonte: Opinião e Notícia


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