domingo, 27 de maio de 2018

Greve dos Caminhoneiros: uma questão política, econômica e de extensão social



Imagem capturada na Internet

Texto modificado em 28/05/2018 às 10h15 (imagem)
Como é de praxe, eu tento mostrar aos alunos, fatos do nosso dia a dia, da nossa realidade sob ótica do conhecimento geográfico. Quem foi ou é, atualmente, meu aluno, já me ouviu dizendo que desde o momento em que acordarmos, estamos vivenciando a Geografia. Até porque a sua área de abrangência integrativa, sistêmica e interdisciplinar, permite compreender não só as partes, como as redes de conexão entre estas na compreensão de um todo integrado.   

 
E é a partir de um fato em si, hoje, por qual o país e a população brasileira estão passando, que podemos entender as partes, as suas conexões e o processo como um todo...

Na atual conjuntura, o país está enfrentando uma crise de grande impacto sobre todos os setores da economia, o qual – além de nos pegar como vítimas em potencial, também – nos possibilita perceber a dimensão e a rede de conexão existente sob os combustíveis fósseis, sobretudo, o petróleo e os combustíveis derivados de sua destilação (diesel e gasolina). Além disso, os efeitos destes sobre os demais setores, cujas implicações já são bastante perceptíveis a nível de produção na agropecuária e nas indústrias, bem como nas atividades do comércio e prestação dos serviços à população (transportes, escolas, hospitais etc.).

Traduzindo melhor... São fortes impactos na ECONOMIA e no contexto social. E não há como desvencilhar o setor energético da economia e do próprio desenvolvimento de um país. Sua integração é estratégica e fundamental, estando presente em nosso dia a dia.

Qualquer anormalidade ou tensão que venha ocorrer no âmbito deste desencadeará sérios problemas em cadeia, sob efeito dominó, aos demais setores da economia, em suas principais atividades e, consequentemente, aos diferentes segmentos da população.  

Estou me referindo à greve dos caminhoneiros, que atinge todo o território nacional, que já dura 7 dias. O motivo da paralisação foi o alto preço do diesel, que é um combustível, derivado do petróleo, o qual é muito utilizado no setor de transportes, como em caminhões, tratores, locomotivas, carros de passeio, embarcações, entre outros veículos.

Esse problema do preço alto do óleo diesel nos remete ao fato que o principal modal de transporte no Brasil é o rodoviário, sendo os caminhões o meio mais expressivo no carregamento de cargas em todo o nosso território. Essa preferência em detrimento a outros modais, como o ferroviário e o marítimo, por exemplo, remonta a década 50 (Século XX), quando do início do processo industrial no país, com o desenvolvimento da indústria automobilística, a abertura e pavimentação das rodovias.

Só para se ter uma ideia, no Brasil, mais de 60% das mercadorias são transportadas por caminhões. Enquanto, outros países, inclusive, com maior extensão territorial optam pelo modal ferroviário, mais adequado.

Essa nossa dependência quanto ao modal rodoviário tem vantagens, mas as desvantagens superam os benefícios que ele oferece. Entre as suas desvantagens pode-se mencionar: 
 
- É o segundo mais caro modal de transporte (o primeiro é o aéreo); 
 
- O elevado consumo de combustível e o alto preço deste; 
 
- Elevados índices de roubo de cargas e de acidentes
 
- As altas despesas de manutenção dos veículos
 
- Os congestionamento diários, sobretudo, nas áreas urbanas, na hora do rush; 
 
- Os impactos ambientais quanto à poluição atmosférica e sonora
 
- O desgaste físico e psicológico do motorista;
 
- As condições regulares a precárias de conservação das malhas viárias (federal, estadual e municipal), que além de danificar partes dos veículos, aumenta o consumo do combustível, entre outras desvantagens.

O acréscimo contínuo dos preços cobrados ao consumidor sobre os combustíveis é decorrente do aumento do dólar e do preço do petróleo. Mas, o que mudou mesmo foi a nova política de reajustes dos preços impetrados pela Petrobras, em vigor desde julho do ano passado (2017).

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Antigamente, o Governo Federal fez uso de um mecanismo para driblar e tentar segurar o aumento da inflação, em cima dos combustíveis, fazendo com que as oscilações do mercado internacional fossem repassadas de forma defasadas aos preços dos combustíveis no país, os quais favoreciam os consumidores brasileiros.

No entanto, essa diferença de valores – sob essa política de controle da inflação do país - causou grande prejuízo à Petrobras, inclusive, sendo apontada como uma das principais responsáveis pelo alto nível de endividamento da referida empresa estatal.

Desde o ano passado (2017), a política de reajustes de preços dos combustíveis mudou, no país, configurando-se desfavorável aos consumidores de combustível, podendo ser ajustada diariamente ou a qualquer momento.

Embora todos os países tenham acesso aos mesmos preços do petróleo nos mercados internacionais, há diferenças nos valores cobrados dos combustíveis, em cada nação, decorre dos impostos que são atribuídos a estes, na venda. O preço médio varia de estado para o estado, refletindo principalmente as diferenças de alíquota de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) e custos de transporte.

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De acordo com o site GlobalPetrolPrice, publicado em 21/05/2018, o preço médio do diesel no mundo é de $ 1,o7 por litro (dólar dos EUA). Neste ranking, o Brasil aparece na 85ª posição – numa relação de 167 países. O preço médio do óleo diesel, em nosso país, é de $ 0,98 por litro, cuja conversão à moeda nacional sai a R$ 3,60.

Pois bem, os últimos reajustes de preço do óleo diesel serviram como a “gota d’água” para deflagrar a greve dos caminhoneiros. Movimento este que se organizou e ganhou maior adesão por meio do aplicativo WhatsApp.

Nada mais justo a mobilização dos caminhoneiros, pois os preços do diesel cobrados nos Postos de Gasolina em nosso país são altos, mas - sem dúvida alguma – os efeitos da greve já são sentidos nos demais setores da economia e na sociedade, ameaçando não só a produção econômica, mas também os serviços essenciais à população, o abastecimento de alimentos no comércio e a mobilidade urbana, por exemplo.

A situação do país está um verdadeiro caos e, tendendo ao seu agravamento, a total colapso socioeconômico, no caso de o Governo Federal não intervir de forma favorável a um acordo com a categoria, a fim de acatar as principais reivindicações dos caminhoneiros.

Só para se ter uma ideia da dimensão do quadro configurado na cidade do Rio de Janeiro, desde 6ª feira passada (25/05), a cidade segue em “estado de atenção, que é o segundo nível de uma escala de três e que significa dizer que, um ou mais incidentes impactaram a capital, provocando reflexos acentuados em sua mobilidade urbana.


Segundo o último balanço divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), no começo da manhã de hoje, o estado do Rio de Janeiro possuía ainda 24 pontos de bloqueio dos caminhoneiros nas rodovias.
E algumas áreas e serviços já se encontram prejudicados e/ou comprometidos com a extensão do movimento de paralisação dos mesmos, a saber:

- No início da paralisação, diversos ônibus municipais e até intermunicipais tiveram que abastecer os veículos em Postos de Gasolina das principais vias da região metropolitana devido à falta de óleo diesel nas garagens de suas respectivas empresas;


- Falta de combustível nos Postos de Abastecimento (a maioria dos Postos da cidade do Rio de Janeiro e em outros municípios brasileiros, dispôs de cordas, correntes e cones como sinalizadores para a falta de combustíveis nas bombas);

 
- Aumento dos preços dos combustíveis em alguns Postos de Gasolina, chegando a ser cobrado o preço do litro da gasolina a R$ 9,99;
- Redução da frota de ônibus municipais, intermunicipais e interestaduais (muitas das quais apresentam atraso na hora do embarque ou já não se encontram circulando mais);

- Redução da frota do BRT (Bus Rapid Transit), com registro de algumas estações fechadas. Devido a falta de combustíveis, o horário do sistema de transporte do BRT, que funciona 24 horas, sofreu alteração, com a suspensão das viagens realizadas durante a madrugada (medida aprovada ontem);

- A situação de desabastecimento de alimentos nos supermercados, feiras, restaurantes, lanchonetes, bares e outros estabelecimentos comerciais continua crítica, afetando tantos os proprietários dos mesmos quantos os consumidores ou clientes. Muitos restaurantes, bares e lanchonetes não estão mais abrindo;

- Preços abusivos dos produtos, sobretudo, de alimentos (verduras, frutas e legumes) nas feiras livres e supermercados;

- Implantação de medidas de restrições quanto à limitação do número de mercadorias a ser comprada nos supermercados e em outros estabelecimentos comerciais;

- Suspensão de Prova de Concurso, como foi o que aconteceu com a aplicação da 2ª fase da Prova do Concurso da OAB, que seria realizado hoje;  

- O risco de faltar água não foi totalmente descartado, pois a falta de produtos químicos para o tratamento da água existe. A Cedae solicitou à população para economizar água;

- Os serviços prestados pelos hospitais, sejam em termos de atendimento com ambulância ou tratamento de pacientes estão comprometidos e em risco de paralisação;

- A redes de fast food McDonald’s já sofre com desabastecimento de alimentos, limitando o seu cardápio. Eu mesma pude verificar isso, ontem, na loja da rede situada na Rua Santo Afonso, na Tijuca;
- A Light, empresa de fornecimento de energia, está oferecendo serviços de atendimento só em casos emergenciais (que coloque em risco a segurança do cliente) e aqueles considerados essenciais (hospitais, escolas, delegacias) devido à falta de combustível; 

- Até o presente horário, as redes de Ensino tanto privada quanto pública municipal suspenderam as aulas de amanhã (28/05), devendo informar – posteriormente – as medidas para os demais dias, caso não seja normalizado. Já rede estadual do Rio de Janeiro declarou que as Unidades Escolares funcionarão normalmente;

- As seguintes Universidades públicas do Rio de Janeiro também suspenderam as aulas nesta 2ª feira (28/05): a UERJ (Maracanã), UFRJ (Ilha do Fundão) e UniRio (Urca).



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Fontes de Consulta


. Jornal O Globo impresso (várias edições)

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