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domingo, 20 de novembro de 2016

20 de Novembro: Dia da Consciência Negra


Imagem capturada na Internet
Fonte: Parágrafo 2


INCOLOR
                                             Autoria desconhecida

No sopro de vida,
o mesclar da Trindade
e, na junção de tudo,
forma-se o ser.

Na vida que surge,
o perfeito se faz
na forma disforme
entre tantos outros mais.

À imagem das mãos
modeladoras do barro,
permeia-se o bem
no refletir do irmão.

Trocam-se as almas
ao embaralhar
das lágrimas,
ao gargalhar do sorriso.

São corpos brancos
de almas negras;
são corpos negros
de almas brancas.

Não há algemas
na prisão do amor!

Na forma viva,
o aprender viver
eterno sonho
incolor de ser.


Imagem capturada na Internet

sábado, 21 de novembro de 2015

20 de Novembro: Dia da Consciência Negra (Atividade Dirigida) - Parte II

 Imagem capturada na Internet
 
Dando continuidade à publicação anterior, acerca da Atividade Dirigida desenvolvida no C.E. Profª Sonia Regina Scudese no âmbito do Projeto Étnico-Racial, trago a letra da música e as fotos das etapas seguidas.
 

O MEU GURI
                                                                                      Chico Buarque

 
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar.
 
Como fui levando não sei lhe explicar.
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá, olha aí, olha aí,
Olha aí, ai o meu guri, olha aí,
Olha aí, é o meu guri e ele chega.
 
Chega suado e veloz do batente e
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço, que haja pescoço para enfiar.
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí,
Olha aí, ai o meu guri, olha aí,
Olha aí, é o meu guri e ele chega.
 
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador.
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos está um horror.
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí,
Olha aí, aí o meu guri, olha aí,
Olha aí, é o meu guri e ele chega.
 
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo,
Acho que tá lindo de papo pro ar
desde o começo eu não disse, seu moço?
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí,
Olha aí, ai o meu guri, olha aí,
Olha aí, é o meu guri.


 
. Descrição do Perfil do “O Meu Guri”
. Nome:
. Idade:
. Cor:
. Altura:
. Estilo (roupa e calçado):
. Acessórios:
 
 































 
 

20 de Novembro: Dia da Consciência Negra (Atividade Dirigida) - Parte I

 Imagem capturada na Internet
 
 
Para não cair na mesmice de sempre e, também, por encontrar-me na elaboração de outros artigos, inclusive, cobrados por alguns alunos, eu não poderia deixar de mencionar acerca da data de ontem, na qual se comemorou o Dia da Consciência Negra.

Data esta que não deveria ser uma específica, mas de reflexão todos os dias. Assim como, não deveria ser chamada “Consciência Negra”, pois o seu sentido é dúbio, podendo ser interpretada como um direcionamento ao negro quanto ao conhecimento de seu papel e importância na sociedade brasileira. E antes do que qualquer outro grupo de cor distinta (branca, indígena, parda e amarela), acredito que eles sabem muito mais do que estes acerca de sua importância na sociedade.

O que falta mesmo é o tripé a ser estabelecido com base no reconhecimento, na valorização e no fim do preconceito.

Como professora regente, eu repudio todas as formas de preconceito e de discriminação, onde quer que ela seja vivenciada e demonstrada. E, a escola – enquanto espaço de grande diversidade cultural – é o ambiente onde mais se manifestam estes tipos de comportamento e, ao mesmo tempo, torna-se o lugar comum para discuti-los.

O preconceito tem várias facetas, baseado em uma relação humana, desigual, marcada por um indivíduo que se acha superior em detrimento a outro que, em geral, faz parte de um grupo minoritário, isto é, em menor número.

Já a discriminação consiste na ação, isto é, na atitude movida pelo preconceito. E é justamente sob estes dois conceitos (preconceito e discriminação racial) que gostaria de tratar a data comemorativa, em questão, compartilhando uma atividade que realizei no C.E. Profª Sonia Regina Scudese, no âmbito do Projeto Étnico-Racial da Unidade Escolar, em um dia de “Sábado Letivo”.

A referida atividade teve por base trabalhar uma letra de música contextualizada, visando não só a leitura e a interpretação da mesma, como também ascender discussões acerca do preconceito racial, sobretudo, aquele que se configura velado e, não, explícito.

Vale ressaltar, ainda, que a mesma fez parte do Projeto “Canto o que não Silencia”, o qual desenvolvi na E.M. Dilermando Cruz e que consistia em trabalhar letras de músicas contextualizadas a questões políticas, sociais, econômicas, ambientais e culturais (leitura e interpretação).
 
Sendo assim, no contexto do Projeto Étnico-Racial do C.E. Profª Sonia Regina Scudese, a música selecionada foi “O Meu Guri”, composta por Chico Buarque (lançada em 1976).

 
A riqueza de sua letra nos leva a traçar detalhes acerca das condições de vida da mãe, antes e após o nascimento do “Meu Guri” e, sobretudo, as atividades que ele pratica no papel de provedor da família. E, ainda, por meio da representação em desenho e descrição do perfil do “Meu Guri”, por cada aluno, é possível traçar a linha de debate para as questões raciais e para o preconceito racial. Mesmo para aqueles que afirmam que não são preconceituosos.
 
A diversidade étnico-racial do nosso país é algo incontestável, tendo em vista a grande miscigenação na formação da sociedade brasileira, com a união entre diversos grupos humanos, como os indígenas (nativos do nosso país), os brancos (colonizadores europeus), os negros (africanos que foram traficados na condição de mão de obra escrava), os amarelos (imigrantes) e tantos outros povos imigrantes que para o nosso país vieram e fixaram residência definitiva.  
 
Em razão disso, a temática em si é de uma riqueza ímpar na compreensão da formação histórica do povo brasileiro. Todavia, entre estes grupos citados e, dentre as diversas facetas do preconceito racial, o grupo negro é – sem dúvida nenhuma – um dos que mais sofre preconceito e discriminação em nossa sociedade.
 
E, levando em conta que o ambiente escolar, por ser um espaço de grande diversidade cultural, social e étnico, reproduz comportamentos desiguais, sob um falso conceito de relação de superioridade x inferioridade, marcada sobretudo pela intolerância ao grupo de alunos negros (cor preta e parda), discutir estas atitudes discriminatórias e, ao mesmo tempo, promover debates acerca da importância de cada um na constituição e no retrato fiel do nosso povo (e de sua cultura) ganham dimensões concretas, capazes de atenuar ou, pelo menos inibir, tais comportamentos inconcebíveis nos dias de hoje.
 
Ainda, neste contexto, não devemos esquecer que há mais de 12 anos, o Governo Federal tornou – através da Lei 10.639/2003 - a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira no currículo escolar do Ensino Fundamental e Médio.
 
Apesar de seu reconhecimento tardio, a legislação em questão assinalou um grande avanço nas discussões acerca da contribuição e do papel do negro na história e na pluralidade cultural do nosso país. E, mais do que nunca, que estas discussões necessitam perpassar pelo combate à discriminação racial, agressiva, escancarada e/ou velada.
 
Sendo assim, a escolha da atividade – em questão - foi mais que uma proposta pedagógica, voltada para leitura e interpretação de letra de música, foi uma tomada de decisão para trabalhar efetivamente a cidadania, o respeito à pluralidade étnico-racial do país e, também, debater o racismo, sobretudo, o velado. 
 
Os Procedimentos Metodológicos adotados perpassaram pelas seguintes etapas:
 
. 1ª Etapa: Leitura da letra da música selecionada (cópia reproduzida para cada aluno e leitura individual);
 
. 2ª Etapa:  Audição e canto da música (acompanhando a mesma a partir do uso de equipamento eletrônico, por duas vezes);
 
. 3ª Etapa:  Análise e reflexão crítica da letra da música por meio da realização de Atividade Dirigida (questões pertinentes à interpretação da música em folha reproduzida para cada aluno);
 
. 4ª Etapa: Reprodução do agente principal da música por meio de desenho e descrição do seu perfil (desenho do "O Meu Guri" em folha de Papela A4 e colorido com lápis de cor, tal como cada aluno o imaginou, assim como a descrição de seu perfil);
 
. 5ª Etapa:  Apresentação individual dos resultados (desenho e perfil) para a turma;
 
. 6ª Etapa:  Análise final e discussões em grupo, contextualizando a letra da música de acordo com a sua significância real e, posteriormente, com as interpretações feitas pelos alunos;
 
. 7ª Etapa: Exposição dos trabalhos no Mural da Unidade Escolar, tendo a atenção de agrupar os diferentes desenhos do “O Meu Guri” de acordo com a cor definida por eles, ou seja, no caso desta atividade, foram as seguintes: preta, parda e branca.
 
A minha contribuição no Mural foi apresentar a letra da música, destacando a análise dos fatos conexos a esta.
 
Quanto aos resultados, como era de se esperar, a grande maioria concebeu “O Meu Guri” de cor preta, embora a música – em nenhum trecho de sua letra – deixa esta característica de forma explícita. A cor parda apontou como segunda opção e, apenas quatro alunos, desenharam “O Meu Guribranco.
 
Vale lembrar, ainda, um outro aspecto direta e/ou indiretamente associado à determinação da cor do perfil do “Meu Guri”, que foi a sua condição social, família em situação de vulnerabilidade social (pobreza e extrema pobreza).
 
______________
Observação: Em razão da extensão do presente texto, continuarei o mesmo em outra publicação (Parte II).

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Dicas de Músicas: Dia da Consciência Negra

Estou aproveitando o espaço para disponibilizar as letras e vídeos de algumas músicas que foram cantadas no Evento da escola em homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra e, aproveito, para sugerir outras que tratam da mesma temática.
 
AQUARELA DO BRASIL
                                   Composição: Ary Barroso


Brasil!Meu Brasil Brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Oh Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingá
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor...

Brasil, prá mim
Prá mim, prá mim

Ah, Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Brasil, prá mim
Prá mim, prá mim

Deixa! Canta de novo o trovador
A merencória à luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado...
Brasil, prá mim

Prá mim, prá mim
Brasil

Brasil! Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiferente
Oh, Brasil samba que dá
Bamboleio, que faz gingá
O Brasil do meu amor

Terra de Nosso Senhor...
Brasil, prá mim
Prá mim, prá mim

Oh, Esse coqueiro que dá côco
Onde eu amarro minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, prá mim
Prá mim, prá mim

Ah! Por essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
Onde a lua vem brincar
Ah! Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro
Terra de samba e pandeiro...
Brasil!Meu Brasil Brasileiro
Brasil, prá mim
Prá mim, prá mim



CANTO DAS TRÊS RAÇAS
                                                                      Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor

No canto do Brasil
Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou
E de guerra em Paz
De paz em Guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor
ô, ô, ô, ô, ô, ôô, ô, ô, ô, ô, ôô, ô, ô, ô, ô, ôô, ô, ô, ô, ô, ô

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor


SORRISO NEGRO

Um sorriso negro,
Um abraço negro
Traz... Felicidade
Negro sem emprego, fica sem sossego
Negro é a raiz da liberdade... (BIS)

Negro é uma cor de respeito
Negro é inspiração
Negro é silêncio, é luto
Negro é...
A solução
Negro que já foi escravo
Negro é a voz da verdade
Negro é destino é amor
Negro também é saudade.. (um sorriso negro !)
Refrão




NEGRO É RAÇA
                                                 Valdeci Alves de Almeida


Preto é cor
Negro é raça
Pelo meu valor
Eu brigo de graça... aaaaah!

A minha indignação
Sempre vai se indignar
Com a discriminação
Sem punição exemplar
Não aboliram a escravidão
Só tornaram mais velada
Uma lei na Constituição
Não nos garante nada... oooooh!

REFRÃO

Nas filas de desemprego
Tribunais, urnas, escolas
O racismo contra o negro
Em todo canto deita e rola
É preciso admitir
E lutar contra o preconceito
Só a união para garantir
Respeito aos nossos direitos... oooooh!

REFRÃO

Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Mandela, Bob Marley...
Martin dos Palmares, Mandela Luther King, Zumbi Bob Marley...
Mandela dos Palmares, Zumbi Luther King, Martin Bob Marley...
BIS

Preto é cor
Negro é raça
Pelo meu valor
Eu brigo de graça... aaaaah!
 
Outras músicas:

. Racismo é Burrice (Gabriel O Pensador)

. Todo Camburão tem um Pouco de Navio Negreiro (Marcelo Yuka)

. Zumbi dos Palmares (Edson Gomes)

. Sou Negrão (Rappin Hood)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

20 de novembro: Dia Nacional da Consciência Negra

Imagem capturada na Internet


A origem da escolha do Dia Nacional da Consciência Negra remonta o início dos anos 70 (Século XX), quando um grupo de seis pessoas em Porto Alegre (Rio Grande do Sul), engajados no movimento negro, resolveram homenagear a luta da comunidade negra brasileira, insatisfeitos - como estavam - com a escolha da data 13 de maio referenciada à Abolição da Escravatura.

Inicialmente, o referido grupo cogitou datas em homenagens aos poetas e abolicionistas Luiz Gama e José do Patrocínio.

A escolha do dia 20 de novembro foi uma sugestão do militante do grupo, poeta e professor de Português, Oliveira Silveira, em tributo a Zumbi e ao Quilombo dos Palmares, respectivamente, nomes do líder e do maior quilombo do Brasil colonial, localizado na Serra da Barriga, cuja área situava-se na antiga Capitania de Pernambuco e, que hoje faz parte do município União dos Palmares, no estado de Alagoas.

De acordo com o mesmo, esta data teria maior expressividade para a comunidade negra brasileira em detrimento a que se comemora a Abolição dos Escravos, assinada em 1888, pela Princesa Isabel.


Poeta e professor, gaúcho, Oliveira Silveira, integrante e militante
do Grupo Cultural Palmares que deu bases para a criação
do Dia Nacional da Consciência Negra


Inclusive foi desta opção que se originou, também, o nome do grupo, passando a se denominar de Grupo Cultural Palmares.

Vale ressaltar, aqui, que a cidade de Palmares, localizada em Pernambuco, não se refere à localidade do Quilombo dos Palmares. Seu nome deriva da grande quantidade de palmeiras que existia na região e adjacências e, também, em menção ao referido Quilombo que, como mencionei anteriormente, se encontra localizado na Serra da Barriga, no estado de Alagoas. No entanto, ambos os municípios faziam parte da área de abrangência da Capitania de Pernambuco.

Este alega, também, que a escolha do dia da morte do líder do Quilombo de Palmares (Zumbi), decorreu em razão da falta de registros históricos sobre a data do seu nascimento e nem do início do Quilombo dos Palmares.

Sendo assim, a data que passou a ser reverenciada primeiramente no Rio Grande do Sul transpassa os seus limites, sendo difundida e conhecida no resto do país. E, segundo o próprio Oliveira Silveira, graças ao apoio e divulgação da imprensa, a data comemorativa alcançou projeção em âmbito nacional.

São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro constam como as primeiras cidades a comemorar a referida data em prol da luta da comunidade negra.


Sete anos depois da iniciativa do grupo gaúcho, mais precisamente em 1978, foi criado o Movimento Negro Unificado contra Discriminação Racial (MNUDR), o qual, em assembléia realizada na Bahia, no final do mesmo ano, acatou a proposta de um militante do Rio de Janeiro, chamado Paulo Roberto dos Santos, e oficializou a data 20 de novembro como o Nacional da Consciência Negra (Data de celebração a Zumbi e a Palmares).

A cidade do Rio de Janeiro foi o primeiro município a instituir a data do Dia Nacional da Consciência Negra como feriado municipal, em 1999 e, em novembro de 2002, este passou a incorporar o calendário estadual através da Lei nº. 4.007, sancionada pela, então, governadora Benedita da Silva.

Em 2003, o atual Presidente da República - Luiz Inácio Lula da Silva - incorporou a referida data comemorativa no calendário escolar e, ao mesmo tempo, tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro Brasileira (Lei N.º 10.639, de 9 de janeiro de 2003).


Este ano, o Governo Federal sancionou a Lei N.º 11.645 (de 10 de março de 2008), onde incluiu - nas Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003) - a obrigatoriedade, também, da História e Cultura Indígena (além da Afro-Brasileira, estabelecida em 2003).
Segue abaixo, a transcrição da entrevista da Agência Brasil com o poeta e professor gaúcho Oliveira Silveira, realizada nesta semana - por telefone - onde o mesmo avalia a atuação do movimento negro no Brasil. Logo, em seguida, disponibilizo imagens do Parque criado na localidade do Quilombo dos Palmares (União dos Palmares, Alagoas)*.

Agência Brasil: Por que o movimento negro gaúcho resolveu buscar uma nova data para reverenciar a luta dos negros contra o regime escravagista, em substituição ao 13 de maio?

Oliveira Silveira: Isso ocorreu em 1971. Estávamos insatisfeitos com o 13 de maio. Havia um grupo de negros que se reunia na Rua da Praia [no centro de Porto Alegre] e o nosso assunto, invariavelmente, era a questão negra e o fato de o 13 de maio não ter maior significação para nós. Logo, surgiu a ideia de que era preciso encontrar outra data. Eu, como gostava de pesquisar, aprofundei-me nisso. E encontrei material, cuja fonte era Édison Carneiro, autor do livro O Quilombo dos Palmares, indicando que Zumbi dos Palmares havia sido morto em 20 de novembro [de 1695]. Essa informação foi confirmada no livro As guerras dos Palmares, do português Ernesto Ennes, no qual foram transcritos documentos. Já que não sabíamos o dia de seu nascimento ou do início de Palmares, tínhamos pelo menos a data da morte de Zumbi, o último rei do quilombo de Palmares, Alagoas. Então, promovemos uma reunião, que originou o Grupo Cultural Palmares, cuja idéia era fazer um trabalho para reverenciar Palmares e Zumbi como algo mais representativo que 13 de maio.


Agência Brasil:Qual a crítica que vocês faziam e ainda fazem ao 13 de maio?

Oliveira Silveira: Nós vimos logo que o 13 de maio teve conseqüências práticas. Não havia medidas efetivas voltadas à comunidade negra. Foi uma liberdade que apareceu apenas na lei e nada de concreto ocorreu depois. Ao mesmo tempo, era uma data oficial, que o oficialismo governamental queria que fosse comemorada, celebrada, com homenagens à princesa Isabel. Ao passo que Palmares significava uma liberdade conquistada na luta, que durou um século inteiro, e, por isso, era plena de significado. Os homens e mulheres quilombolas fizeram um trabalho de resistência, de afirmação da dignidade humana sem precedentes, de luta pela defesa da liberdade. Então, não havia dúvidas de que aquela era a principal passagem da história do negro no Brasil.


Agência Brasil: Quando foi realizado o primeiro ato para reverenciar Zumbi e Palmares?

Oliveira: Como o Grupo Palmares havia se disposto a trabalhar a partir de datas e já estávamos em julho de 1971, resolvemos homenagear primeiro o poeta e abolicionista Luiz Gama, que morreu em 24 de agosto, e mais adiante, em outubro, homenageamos o nascimento do poeta e abolicionista José do Patrocínio. Em novembro, fizemos a homenagem a Palmares. À época, o Grupo Palmares tinha quatro pessoas e depois entraram mais duas mulheres. Por isso, consideramos que o grupo fundador foi formado por seis pessoas, que fizeram esse trabalho em 1971, quando homenageamos Luiz Gama, Patrocínio e Zumbi e Palmares. O Grupo Palmares realizou, então, no Clube Náutico Marcílio Dias, em Porto Alegre, o primeiro ato evocativo a Zumbi e a Palmares. Foi o início de um trabalho que teve continuidade ao longo dos anos.


Agência Brasil: Quando o restante do país começou a reverenciar o 20 de novembro?

Oliveira: Inicialmente foi só o Rio Grande do Sul, mas graças à divulgação, com o apoio da imprensa, a data foi se tornando conhecida. Em 1975 e 1976, São Paulo, com grupos de teatro de Campinas e da capital paulista, e o Rio de Janeiro começaram a celebrar o 20 de novembro. De modo que foi se implantando o 20 de novembro no país. Até que em 1978 surgiu a idéia de formar o coletivo de organizações negras denominado MNUDR – Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial. Foi a tentativa de uma organização que reunia algumas entidades, entre as quais algumas já celebravam o 20 de novembro. No final de 1978, numa assembléia na Bahia, foi proposta a denominação de Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro. Foi uma idéia feliz de Paulo Roberto dos Santos, um militante do Rio de Janeiro. Então, aquilo fez com que o 20 de novembro se consolidasse [como data de celebração a Zumbi e a Palmares e de afirmação da comunidade negra brasileira], mas foi um trabalho contínuo do Grupo Palmares. Foi também o coroamento de um trabalho realizado no Rio Grande do Sul pelo Grupo Palmares e que se tornou importante, porque foi adotado pelo movimento negro em nível nacional.


Agência Brasil: O que representou o resgate da figura de Zumbi e do quilombo de Palmares na luta do negro em busca da cidadania plena e de sua auto-estima?

Oliveira: Foi extremamente significativo, porque o 20 de novembro se mostrou como algo com uma força aglutinadora muito grande. Com isso, muitos grupos se formaram e muitas atividades passaram a ser desenvolvidas. Em São Paulo, por exemplo, criou-se o Festival Comunitário Negro Zumbi, que promovia atividades em cidades do interior. Foi uma motivação muito positiva, especialmente pela mensagem, uma coisa mais afirmativa do que o 13 de maio.


Agência Brasil: Como o senhor explica que o resgate histórico de Zumbi e do quilombo dos Palmares tenha começado justamente num estado de maioria branca, como o Rio Grande do Sul, com forte presença de imigrantes de origem européia?

Oliveira: Parece até algo meio milagroso que o segmento negro tenha resistido nos estados do Sul. Antes, a Região Sul era considerada essa parte que vai do Rio Grande do Sul a São Paulo. E foi onde a imigração se localizou preponderantemente. Então, houve uma política voltada para essa região. Foi a política do branqueamento, que trouxe imigrantes e deixou de lado e de fora o indígena e o negro, a partir do século 17. Essa política poderia ter eliminado o segmento negro, mas ele resistiu. Eu considero que os imigrantes vieram como convidados e também interessados. Tiveram depois grande participação, grandes oportunidades e apoio logístico, inclusive de seus países. De modo que eles se desenvolveram muito aqui. Eles não podem ser isentados de culpa ou qualquer coisa nesse gênero, porque, na verdade, são beneficiários da nossa exclusão, da tentativa de exclusão de negros e indígenas.


Agência Brasil: Como o senhor avalia a atuação do movimento negro hoje e a inserção do negro na sociedade brasileira?

Oliveira: Foi um processo. O movimento foi se desenvolvendo. Vieram novas fases. Tivemos aquela primeira fase, de 1971 a 1978, que eu chamo de virada histórica. Depois, uma fase de surgimento de organizações e de aproximação com o poder, com o governo e a participação na [Assembléia] Constituinte de 1988. A partir da nova Constituição, temos uma nova fase, na qual o movimento tem uma linha mais prática. Já temos experimentações muito importantes, com participação no governo. Temos a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial [Sepir] e a Fundação Palmares. São instâncias que nos permitem uma experiência muito válida. Então, o movimento avança. E, com a política de cotas nas universidades, estamos dando passos importantes e necessários.


Agência Brasil: O Brasil se intitula como a maior democracia racial do mundo. Como o senhor analisa isso?

Oliveira: A democracia racial é um mito trabalhado especialmente em função dessa política de branqueamento, que nunca foi revogada. A miscigenação é apresentada como uma coisa positiva, mas, na verdade, não é. No Brasil, existe preconceito, discriminação na prática, existe racismo. É um país reconhecidamente racista. Isso é oficialmente reconhecido. Eu acredito que o racismo não é uma coisa que desapareça, que possa ser eliminado. Ele pode se aquietar, mas lá pelas tantas está vivo, forte e atuante.

Nota (publicada em 10/02/2017): O referido professor, poeta e pesquisador Oliveira Ferreira da Silveira faleceu no dia 01/01/2009.


Fontes de Pesquisa:







Imagens capturadas da Internet

União dos Palmares, Alagoas



Morro da Barriga, União dos Palmares (AL)


Parque Memorial Quilombo dos Palmares (aberto em maio/2006)