sábado, 10 de novembro de 2018

Fuga de Cérebros ou Fuga de Capital Humano

Fuga de Cérebros ou Fuga de Capital Humano (brain drain)
Imagem capturada na Internet


Aproveitando o tópico da última postagem sobre migrantes...
 
Vários podem ser os motivos, mas não restam dúvidas que a instabilidade econômica (crise financeira e econômica) do país e, consequentemente, a falta de investimentos em diversas áreas de produção científica e tecnológica se constitui em um dos mais principais fatores de emigração (saída) de indivíduos com alto grau de conhecimento técnico e científico, como pesquisadores e cientistas, para os países desenvolvidos.
 
O movimento migratório desse emigrante, com esse perfil – altamente habilitado (diplomado) e detentor de nível de conhecimento elevado - é chamado de “fuga de cérebro” ou “fuga de capital humano” (em inglês, “brain drain”).

Outros fatores também justificam a migração internacional, sob esse contexto de “fuga de cérebros”, tais como: instabilidade política, guerras civis, conflitos armados, conflitos étnicos, epidemias, entre outros.

De acordo com artigo do colunista do Leiaja, DINIZ, Janguiê, publicado em 04/04/2018, o termo “brain drain (“fuga de cérebro”) foi criado pela Royal Society of London for the improvement of natural knowledge (Real Sociedade de Londres para o melhoramento do conhecimento natural). O ano não foi citado, só o da fundação da respectiva Instituição, que é datada de 1660.

Embora, a “fuga de cérebros” seja um fenômeno bem documentado nas migrações externas ou internacionais (entre países), ela também ocorre no âmbito do território nacional, podendo ser uma migração inter-regional (de uma região para outra) ou intra-regional (dentro da mesma região, de um estado para outro).
 
Em geral, os fatores de atração perpassam pelas melhores oportunidades e condições de desenvolver o seu trabalho científico, pelo reconhecimento de sua atuação na área, pela obtenção de uma remuneração mais compatível com a sua produção, entre outros fatores.

Não restam dúvidas que o fluxo migratório que mais chama a atenção e incide em uma discussão maior é a internacional, mesmo sabendo que nos países de destinação (países receptores como os os da Europa e os EUA) há um quantitativo amplo de pesquisadores e cientistas de alto nível, tal como afirma DINIZ quanto a este último,

É importante registrar que os EUA,
mesmo tendo o maior número de cientistas em seu território,
são o maior receptador dos melhores cérebros do mundo,
visando desenvolver novas tecnologias de ponta
para que possam ser patenteadas naquele país.
Não é à toa que a maioria das inovações tecnológicas
tiveram origem naquele país, principalmente
no Vale do Silício e Califórnia,
embora tenham sido criadas por estrangeiros,
principalmente de nacionalidades indianas,
árabes, europeus, latinos, inclusive brasileiros,
residentes naquele país.”
 
Daí a “fuga de cérebros” ter efeitos sobre os dois lados, isto é, em ambas as partes, a de saída (emigração) e a de entrada (imigração). Efeitos antagônicos, por sinal!

Por um lado, a emigração desses profissionais - altamente especializados - deixa o país carente de recursos humanos deste nível, comprometendo e prejudicando o desenvolvimento das linhas de pesquisa e de tecnologia nas respectivas nações de origem. Por outro lado, a imigração acaba sendo benéfica para os países que os recebem (países receptores) em virtude da atuação dos mesmos nestas áreas de desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias de ponta.

Contudo, há alguns especialistas que apontam que para o país dispersor (emigrante) há também a possibilidade da “fuga de cérebros” trazer benefícios no futuro, isto é, a partir do momento que os emigrantes retornem para os seus respectivos países de origem, nos quais poderão trabalhar e aplicar toda a bagagem adquirida em termos de experiências e de aprimoramento técnico-científico.

Mas, para que isso ocorra, é necessário que o país de origem, o mesmo que o afugentou a migrar, esteja passando por um período de estabilidade econômica, com a verificação de investimentos – tanto público quanto privado – em projetos científicos, capazes de os reconhecer e valorizar como importante “capital humano”.

Como se sabe, a crise econômica e financeira em nosso país tem relação direta com esses fluxos migratórios, cuja situação se agravou – nos últimos anos - mediante os cortes drásticos do Governo – nas três instâncias do poder (Federal, Estadual e Municipal) - no orçamento das áreas da Ciência e da Tecnologia.

Sob esse contexto, DINIZ afirma,


 As fugas de cérebros são extremamente comuns
entre os países mais pobres do planeta,
e também entre as nações em desenvolvimento,
como países africanos, ilhas do Caribe, países da América latina,
além do Brasil, onde existe carência de investimento em pesquisa da ciência e tecnologia,
e por via de consequência as habilidades e competências
não são valorizadas e recompensadas monetariamente.” 
E ele acrescenta ainda que,
Primeiramente, é importante asseverar que gastos
com inovação e pesquisa da ciência e tecnologia
não são gastos, são investimentos,
pois ajudam o país a se desenvolver.”
 
Com isso, há anos, vários pesquisadores brasileiros deixaram e estão deixando o nosso país, na intenção de assegurar a continuidade de seus projetos de pesquisa em um país desenvolvido, seja os EUA ou na Europa.

O caso que ganhou maior repercussão no meio acadêmico, científico e nas mídias, em 2016, foi o da pesquisadora e neurocientista brasileira, Suzana Herculano-Houzel, que trabalhava no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 
Pesquisadora Suzana Herculano-Houzel
Imagem capturada na Internet
 
A referida pesquisadora deixou o Brasil para trabalhar nos Departamentos de Psicologia e Ciências Biológicas da Universidade Vanderbilt, situada em Nashville (Tennessee – EUA), justamente, por esse mesmo motivo, ou seja, devido aos cortes de investimentos do Governo Federal nas áreas de pesquisas e a situação caótica criada em consequência da falta de recursos financeiros nas Universidades e Instituições de Pesquisa.

Além desse problema em termos de cortes e de baixos investimentos, por parte do Governo, Janguiê Diniz aponta, também, a falta de conexão entre as Universidades e as Empresas, sob o sistema de parcerias, faz com que tais pesquisas não sejam efetivamente poupadas de cortes ou de interrupções em seus desenvolvimentos.

Fontes de Pesquisa

. DINIZ, Janguiê. Como evitar a evasão de nossos cientistas (brain drain ou fuga de cérebros) - Leiajá

. Material Didático particular

Fluxos Migratórios Nacionais e Internacionais: Conceitos Básicos das Categorias de Migrantes

Charge sobre a crise Humanitária com
os refugiados do Oriente Médio em
direção à Europa
Imagem capturada na Internet
Fonte: G1 

Aproveitando o conteúdo deste bimestre (População), vale a pena ressaltar as diferenças entre os conceitos de “migrante”, “imigrante”, “emigrante”, “refugiado”, “asilado” e “deslocados internos”, pois muitas pessoas confundem. Eu até acho natural, pois todos eles se encontram associados aos fluxos migratórios, são migrantes, mas com aspectos e razões específicas.
 
Antes de mais nada é preciso definir migração, que consiste no deslocamento do indivíduo ou de populações humanas de um determinado ponto do espaço geográfico para outro. Ficando subtendido que toda mobilidade espacial envolve duas áreas, de um lado se configura a saída e do outro, a entrada.
 
Sendo assim, o “migrante” é o indivíduo que se encontra em trânsito, ou seja, saindo de um ponto e entrando em outro.

 
. EMIGRAÇÃO: Consiste no ato de deixar o seu local de origem. Daí o indivíduo ao sair do seu espaço de origem ser chamado de emigrante.
 
. IMIGRAÇÃO: Constitui-se na ação de entrada em outro espaço, distinto ao seu de origem. Daí o indivíduo, nesta situação, ser chamado de imigrante (estrangeiro).
 
Exemplo: O brasileiro que sai do Brasil para morar em Nova York, nos EUA, em relação ao nosso país, ele é um emigrante (saída), no entanto, em relação à cidade de Nova York e aos EUA, ele é um imigrante (estrangeiro).

Vários fatores justificam o ato de migrar, podendo ser de repulsão (expulsão) ou de atração. Seja qual for o fator, será este que vai responder pela decisão do indivíduo em se deslocar definitivamente ou temporariamente.

Os fatores de REPULSÃO estão associados ao local de origem, cujas características desfavoráveis tornam a vida do indivíduo mais difícil ou até mesmo impedem a sua permanência na localidade. Tal situação é responsável pela decisão de migrar.
 
Os fatores de ATRAÇÃO, por sua vez, se encontram relacionados às características positivas das áreas de destino, ou seja, são as qualidades e condições favoráveis destas que vão determinar a orientação dos fluxos migratórios.
 
. Possíveis Fatores de Repulsão (Expulsão): Guerras, conflitos armados, aumento da violência urbana nas grandes cidades, condições climáticas rigorosas, perseguições políticas, religiosas ou étnicas, desastres naturais (secas, incêndios naturais, terremotos, erupções vulcânicas etc.), desastres ambientais de origem antrópica (acidente nuclear, rompimento de barragem etc.), estagnação econômica, entre outros.
 
. Possíveis Fatores de Atração: Maior oferta de emprego, tolerância política, ideológica, religiosa ou racial, acesso a instituições de ensino de qualidade, dinamismo econômico, condições climáticas amenas, melhores condições de vida (segurança, serviços variados etc.), programa ou política governamental de estímulo à imigração etc.
 
Sob esse contexto, entre os fluxos migratórios e os fatores responsáveis pela decisão em migrar, é notório que a questão econômica tem um grande poder sobre as decisões do migrante. Ainda mais que a desigualdade socioeconômica existente entre os países subdesenvolvidos e os desenvolvidos é muito grande.
 
Agora, vamos pensar mais um pouco... Vou empregar a frase que sempre uso em sala de aula...
 
Todo refugiado é um imigrante,
mas nem todo imigrante é um refugiado”.
 
O mesmo se aplica em relação ao asilado... Ambos os termos (refugiado e asilado) se referem a categorias particulares de imigrantes. Vejamos...
 
. REFUGIADO: O refugiado é o imigrante que se viu forçado a fugir de seu país de origem por se sentir perseguido ou ameaçado por motivos diversos motivos, sejam este por intolerância étnica, religiosa, de orientação sexual e outras, participação em grupos sociais, guerra, conflitos armados, violência urbana, violação massiva dos direitos humanos etc. Situação esta que não permite a possibilidade de regresso ou não se queira retornar ao seu país de origem.
 
Vale ressaltar aqui que, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), reconhece como refugiados, tal como mencionei acima, as pessoas sujeitas à discriminação, ofensas ou tratamentos desumanos em virtude à sua homossexualidade e/ou orientação sexual, cujos governos não são capazes ou não queiram protege-las.
 
A chamada Convenção de Genebra de 1951, regulamentação internacional que trata do refúgio, assegura aos refugiados, entre outros benefícios, o direito de não serem expulsos ou devolvidos a seus países de origem, enquanto os mesmos continuarem sob riscos de vida ou de liberdade.
 
Para um refugiado, a segurança é o fator mais relevante no país que o acolheu, atribuindo valor secundário às condições econômicas encontradas neste.

Aylan Kurdi (3 anos), criança síria encontrada morta
em uma praia da Turquia (03/11/2015).
 Ele e sua família (pai, mãe e o irmão)
buscavam refúgio na Europa.
A família toda morreu na travessia, exceto o pai.
Imagem capturada na Internet - Fonte: Revista Veja
 
. ASILADO: Embora, o asilado também sofra perseguição em seu país de origem, tal como o refugiado, esta – no entanto - se refere apenas à perseguição política. Daí a denominação asilado político. E para que o solicitante possa receber o asilo em outro país, este não pode ter cometido um crime comum ou estar em aguardo de julgamento quanto a este.

Edward Snowden, ex-técnico da CIA e ex-analista de inteligência da Agência Nacional de Segurança (NSA/EUA),
 que assumiu o vazamento de dados acerca da espionagem americana,
teve asilo político na Rússia (até 2020).

Imagem capturada na Internet - Fonte: Revista Veja
 
. DESLOCADO INTERNO: Consiste no indivíduo que foi forçado a abandonar sua residência, seu emprego, enfim, o ritmo de sua vida cotidiana, pelos mesmos motivos que os refugiados, mas sem sair do seu respectivo país, ou seja, ele não ultrapassa as fronteiras políticas com os países vizinhos, deslocando-se dentro do seu território nacional.
 
De acordo com o ACNUR, em todo o mundo, estima-se que existam mais pessoas deslocadas internamente - no âmbito do seu próprio país – do que refugiados em nações estrangeiras.

Fontes de Pesquisa:

. Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR)
. LISBOA, Severina Sarah. Os Fatores Determinantes dos Novos
  Movimentos Migratórios - Revista Ponto de Vista – Vol.5 - Disponível em PDF

. Material Didático particular