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terça-feira, 10 de outubro de 2023

Desastres Naturais que Marcaram Setembro de 2023 - Parte III

 

Cidade de Derna
Imagem capturada na Internet
Fonte: Vatican News
Foto: The Press Office of Libyan Prime Minister/AFP

Outro tópico referente a desastres naturais que marcou muito o mês passado (setembro) aconteceu na Líbia, país localizado no Norte da África, o qual sofreu uma forte tempestade, na região leste do país, no dia 10 de setembro. 

Cidades afetadas pela Tempestade Daniel
Imagem capturada na Internet
Fonte: BBC News Brasil

As chuvas extremas, consideradas dentro de um sistema de tempestades denominado de “Tempestade Daniel”, atingiram e inundaram países como a Grécia, a Turquia e a Bulgária, matando mais de 20 pessoas. 

Ao alcançar partes do Mediterrâneo Central e Oriental, esta se transformou em um “medicane”, ou seja, um ciclone tropical mediterrâneo. Trata-se de um tipo de tempestade relativamente rara, cujas características se assemelham às dos furacões e tufões. 

Imagem capturada na Internet
Fonte: Tempo Agora


Em território líbio, as inundações - causadas pela tempestade Daniel - foram devastadoras, sobretudo, na cidade portuária de Derna, na porção Leste do país, tendo em vista o rompimento de duas barragens do rio Wadi Derna.

Essas barragens eram antigas e não passavam por manutenção desde 2002, apresentando – com isso – um alto potencial de risco de rompimento e de inundação.

Com o rompimento das barragens, um grande volume de água desceu pelas montanhas em direção à zona costeira, atingindo a respectiva cidade, inundando e destruindo bairros inteiros, tal como um tsunami. De acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), a onda foi de 7 metros.

Rompimento das barragens
e o trajeto das águas 
Imagem capturada na Internet
Fonte: G1/Globo


Embora, divergentes quanto aos números oficiais de vítimas fatais, fornecidos pelo ministro da Saúde do governo líbio, os dados do Crescente Vermelho Líbio (FIRC) assinalam que a tragédia em Derna provocou a morte de cerca de 11,3 mil pessoas, sendo estimado 10,1 mil desaparecidos. Enquanto, em outras cidades do Leste da Líbia, pelo menos 170 pessoas morreram em consequência das enchentes.

Antes de atingir o território líbio, o sistema medicane foi fortalecido com a evaporação das águas do Mar Mediterrâneo, que se encontravam - excepcionalmente - quentes 

Especialistas afirmam que a atmosfera estando mais quente, ela retém mais umidade, o que implica em chuvas mais extremas. Daí o aumento da intensidade de fenômenos meteorológicos extremos estar associado, provavelmente, à crise climática da Terra.

Mas, neste caso da tragédia na Líbia, devemos considerar não só a tempestade de caráter raro (extrema) e as mudanças climáticas, como também o rompimento das duas barragens (velhas) do rio Wadi Derna.  

Em Derna choveu 250 mm, mas o recorde ficou para Al-Bayda, cidade localizada a oeste da primeira, cujo registro foi de mais de 414 mm em 24 horas.   

Além desses fatores, o país é marcado por uma grande instabilidade política, dividida em dois governos sob duas faixas territoriais internas (faixas Oeste e Leste), o que agrava mais ainda o cenário caótico da Líbia pós-tragédia (chuvas torrenciais e inundações). 

Detentora das maiores reservas de petróleo e de gás natural da África, o país foi dividido entre grupos adversários após a queda do ex-Líder Muammar Khadafi, que governou o país – por 42 anos - de forma autocrática (ditatorial). Ele foi deposto e morto durante o movimento chamado “Primavera Árabe”, em 2011, que tinha o apoio das potências ocidentais. Processo este, que levou a uma guerra civil na Líbia (2014-2020), agravando o cenário de devastação do país, causando amplos prejuízos à pouca infraestrutura básica que possuía, na época.


Ex-ditador da Líbia, Muamar Kadafi
Imagem capturada na Internet
Fonte: Veja

Em 2020 foi assinado um cessar-fogo por ambos os lados, no entanto, as disputas políticas continuaram.  

Em 2021 foi constituído um Governo de Unidade Nacional, na faixa Oeste, com sede na capital Trípoli, cujo governo foi reconhecido internacionalmente (ONU). No ano seguinte, o Parlamento do Leste compôs um governo concorrente, denominado de Governo de Estabilidade Nacional, sob a cidade portuária de Tobruk. 

Ambos se autoproclamaram governantes legítimos da Líbia, o que acarreta – até hoje - grandes dificuldades quanto aos esforços internacionais de paz. A princípio, mesmo sob pressão internacional e, mediante às disputas e conflitos violentos internos, pouca ou nenhuma perspectiva de solução mitigadora à sua unificação existe. 

Sob este contexto de instabilidade política e, no caso da recente tragédia ocorrida no país, essa polarização de dois governos dificultou os esforços de resgate, uma vez que ambos não conseguiram responder com a devida agilidade à catástrofe natural, ocorrida justamente na porção Leste do país. 

Melhor dizendo... Com a tempestade Daniel, os serviços públicos do país colapsaram. O fato de não ter tido, por anos, investimentos em obras públicas de grande relevância à evacuação e deslocamento da população e, sobretudo, em sistemas efetivos (comunicação, equipamentos apropriados e recursos humanos treinados) quanto à prevenção a desastres naturais e/ou de origem antrópica, fez com a situação do país se agravasse mais ainda, causando um elevado número de desaparecidos e de vítimas fatais, muitas das quais carregadas para o mar. 

Muitos corpos se encontravam espalhados pelas ruas e/ou nas praias. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) enviou sacos para os corpos das vítimas mediante às dificuldades da Líbia. E, mais, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros grupos de ajuda humanitária solicitaram às autoridades líbias que parassem de enterrar os corpos das vítimas em valas comuns. 

Segundo Petteri Taalas, Secretário-Geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM):

“Se houvesse um serviço meteorológico 

operando normalmente,

eles teriam emitido os avisos 

e também a gestão de emergência deste

teria sido capaz de realizar a evacuação das pessoas

e teríamos evitado a maioria das vítimas humanas”.

(CNN Brasil, 2023)

 

Imagem capturada na Internet
Fonte: Organização Meteorológica Mundial





Imagem capturada na Internet
Fonte: CNN Brasil




















Imagens capturadas na Internet
Fonte: Vatican News















Imagens capturadas na Internet






Imagens capturadas na Internet
Fonte: Metsul











Imagens capturadas na Internet







Imagens capturadas na Internet
Fonte: G1/Globo


















 As condições meteorológicas não foram bem estudadas,

nem os níveis da água do mar e das chuvas,

nem as velocidades do vento.

Famílias que poderiam estar no caminho

da tempestade e nos vales não foram retiradas a tempo.

A Líbia não estava preparada 

para uma catástrofe como esta.

Nunca testemunhamos esse nível de catástrofe antes.

(OSAMA ALY, 

chefe da autoridade de Emergência e Ambulâncias da Líbia)


Fontes de Consulta 

. ALKHADI, Celine e HAQDA, Sana Noor (2023): Maioria das mortes causadas por tempestade na Líbia poderia ter sido evitada, diz ONU – CNN Brasil

Autoridades da Líbia abrem inquérito para investigar colapso de duas represas durante tempestade (2023) – Jornal Nacional

. CARDOSO, Derla: Como o caos político da Líbia agravou a tragédia das enchentes (2023) – CNN Brasil

. Catástrofe Épica pela Chuva na Líbia pode ter mais de 10 mil mortos (2023) - Metsul 

. Chuva extrema na Líbia se tornou até 50 vezes mais provável (2023) – Tempo Agora 

. Enchente catastrófica na Líbia ocorreu em 90 minutos, dizem autoridades (2023) – CNN Brasil 

. Enchentes na Líbia: a cidade que parece ter sido varrida por tsunami (2023) – G1/Globo 

. Enchentes na Líbia podem ter deixado mais de 20 mil corpos: ‘O mar continua trazendo corpos” (2023) – G1/Globo 

. Justiça da Líbia ordena detenção oito funcionários do governo após inundações (2023) – G1/Globo 

. Líbia: quatro perguntas e respostas sobre a situação após as enchentes (2023) – Médicos Sem Fronteiras 

. Mortes na Líbia sobem para 11,3 mil, diz Crescente Vermelho (2023) - G1/Globo 

. 'Parece o apocalipse': enchentes na Líbia podem causar mais de 20 mil mortes (2023) – BBC NewsBrasil 

. Tempestade Daniel deixa rastro de morte e destruição na Líbia (2023) – Vatican News 

. Tempestade Daniel provoca chuvas extremas e inundações no Mediterrâneo, pesadas perdas de vidas na Líbia (2023) – Organização Meteorológica Mundial 

. VIGGIANO, Giuliana, PUTINI, Júlia e BISCHOFF, Wesley : Rompimento de duas barragens agravou situação na Líbia; MAPA mostra percurso da água (2023) – G1/Globo

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Líbia: O Fim de uma Era de 42 anos de Regime Ditatorial



O Efeito Dominó nos Conflitos do Mundo Árabe 
 Imagem capturada na Internet (Fonte: Wikipedia)


Muitos alunos do 9º Ano do Ensino Fundamental se mostraram interessados e “antenados” acerca dos fatos da atualidade, sobretudo, em relação à morte do ex-ditador da Líbia, Muammar Khadafi. 

Eu já havia comentado – em sala de aula e no Blog – acerca dos conflitos que vêm ocorrendo no chamado Mundo Árabe, isto é, nos países do Norte da África e do Oriente Médio, predominantemente islâmico, de cultura árabe. Inclusive, o mesmo fora tema de uma questão em uma das minhas avaliações passadas. 

Estas manifestações populares contra os regimes ditatoriais que vêm ocorrendo, desde dezembro de 2010, passou a ser chamada de Primavera Árabe. 

Além de reunir questões comuns referentes aos regimes dos seus respectivos países, sob a forma de ditadura (autoritarismo, violência, falta de liberdade etc.), dois aspectos precisam ser destacados, as atitudes da população envolvida, insatisfeita e ávida por mudanças radicais e o uso de tecnologia de comunicação e de redes sociais (Facebook e Twitter, por exemplo) para divulgar e mobilizar as pessoas em prol do processo revolucionário, que começou na Tunísia (dezembro do ano passado), derrubou o seu presidente, se alastrou por outros países, derrubou o presidente do Egito, continuou, colocou fim na era do regime do ex-ditador Kadafi (42 anos no poder) e, ainda, continua através de mobilização e protestos populares em outros países das regiões abrangidas. 

Seguindo esta onda dos protestos populares contra os regimes autoritários que, há décadas estão no poder, vimos no último dia 20/10 (5ª feira passada), o período de 42 anos de poder do ex-ditador Muammar Kadafi, na Líbia, ser encerrado de vez, após o ataque da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e dos combatentes líbios ao comboio que o levava, que resultou em sua captura e morte. Fato tão divulgado nas mídias e comemorado pela população líbia e em muitos países do mundo.


Muammar Kadafi 
Imagem capturada na Internet 

O início do conflito na Líbia aconteceu em fevereiro deste ano, na cidade de Benghazi, considerada o reduto da oposição ao governo de Kadafi e, desde a contra-resposta agressiva do ex-ditador às manifestações populares, insurgentes, o país mergulhou em uma violenta guerra civil. 

De todas as manifestações populares que vêm ocorrendo no Norte da África e no Oriente Médio, a da Líbia foi – até então - a mais violenta, com o ex-ditador Muammar Kadafi ordenando às forças militares abrirem fogo contra os rebeldes, população líbia, opositora e insatisfeita.


 Caça líbio atingido por forças rebeldes, 
em março deste ano, na cidade de Benghazi    
 Imagem capturada na Internet 
Fonte: Terra - Foto AFP

De acordo com o que foi noticiado, nos principais meios de comunicação, o número estimado de mortos chega a mais de dois mil. 

No final de março do ano em curso, o Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão político dos rebeldes líbios, ganhou maior força com o apoio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sobre as estruturas militares e de comando do ex-ditador. 

Sob o aval do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), a OTAN afirmou que sua missão era proteger à população líbia e, sobretudo, ao segmento insurgente em luta pela democracia e contra a repressão do regime de Kadafi. 

No final do mês de agosto, ao tomarem outras cidades e a capital do país, Trípoli, os rebeldes conseguiram derrubar o ex-ditador, assumindo o controle do seu quartel-general. 

Muammar Kadafi, por sua vez, assegurou reação imediata contra as tropas do Conselho Nacional de Transição (CNT) e, a partir desta tomada dos rebeldes, fugiu, constando como desaparecido até que, no último dia 20 de outubro, um comboio com 75 veículos militares em fuga (alta velocidade) da cidade de Sirte foi bombardeado pela operação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).


 Míssil disparado por combatentes anti-Kadafi na cidade de Sirte, 
no início do mês em curso 
Imagem capturada na Internet 
Fonte: Terra - Foto AP 

 Comemorações dos rebeldes pela tomada 
da cidade natal do ex-ditador Muammar Kadafi 
 Imagem capturada na Internet 
Fonte: Terra - Foto REUTERS

De acordo com o que foi noticiado nas mídias, a OTAN afirmou que desconhecia a presença do ex-ditador no comboio e que o ataque se deu em razão do mesmo estar portando grande armamento e de seu caráter pró-Kadafi (em situação de fuga). 

Verdade ou mentira, o fato é que o ex-ditador Muammar Kadafi se encontrava no comboio e em fuga. Ele foi capturado depois pelos rebeldes e... 

A sequência dos fatos, todos sabem, pois foi bastante explorada pelos principais veículos de comunicação. 

Kadafi estava ainda vivo, bastante ferido e, depois, apareceu morto. O seu filho, Muatassim, também morreu neste ataque contra o comboio em Sirte. 

Tanto o corpo do ex-ditador quanto o do seu filho ficaram expostos ao público no último sábado (22/10), na cidade de Misrata, onde se concentram opositores do ex-ditador Kadafi, contrariando as próprias leis muçulmanas, que preconiza o tempo de 24 horas entre o período da confirmação da morte e do sepultamento. 

O local do enterro de ambos foi mantido em segredo em razão dos riscos de violação dos túmulos por vandalismo, bem como de peregrinação, na idolatria ao ex-ditador. Sendo assim e, de acordo com a imprensa on line e impressa, eles e mais um ex-assessor foram sepultados, ontem (3ª feira), às 5 h da manhã (horário local), no deserto (Saara), em local não divulgado, tendo a presença de familiares e autoridades. 

Em razão de todo o mistério criado acerca do sepultamento, principalmente, do ex-ditador e de seu filho, não confere a esta informação uma forte credibilidade, pois não houve confirmação oficial. 

Com a sua morte e o fim do regime ditatorial e autoritário no país, não podemos afirmar que o pesadelo da Líbia acabou, pois o seu futuro permanece, ainda, incerto. Espera-se que tenha encerrado e uma nova vida e sentido democrático seja estabelecido em seu território, mas é preciso aguardar... 

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Anders Fogh Rasmussen, declarou que pretende encerrar a sua missão na Líbia, no próximo dia 31 de outubro, mas o próprio presidente do Conselho Nacional de Transição (CNT), Mustafa Abdel Jalil, assim como outras autoridades internacionais solicitaram, hoje, a permanência da mesma no país até o final do ano. A resposta da OTAN ainda não foi emitida.

A Líbia foi declarada um país independente pelo Conselho Nacional de Transição (CNT) e deve realizar eleições livres e democráticas em até oito meses. Está previsto também a elaboração de nova Constituição e criação de um governo provisório.


Fontes de Consulta
. Jornal O Globo (impresso - várias edições)
. Wikipedia