sexta-feira, 18 de junho de 2010

Mutilação Genital Feminina: uma prática cultural em países africanos, asiáticos e, em expansão, na Europa


Waris Dirie - Imagem capturada na Internet (Google)




Para quem pensa que a caça aos albinos é a única crendice absurda praticada na África está totalmente enganado.

Não resta dúvida que esta prática existente, principalmente, na Tanzânia e Burundi é hedionda e inadmissível nos dias de hoje (vide postagem do dia 04 de junho), mas há também outras que nos chamam a atenção e nos chocam no referido continente e, inclusive, nestes dois países.

Uma delas é a mutilação do órgão genital da mulher, mais conhecida como MGF (Mutilação Genital Ffeminina), na qual são submetidas meninas (crianças), jovens e mulheres adultas.

Na maioria das vezes, a mutilação é realizada antes da puberdade e, em geral, nas meninas com idades entre 4 a 8 anos.

Consiste em uma prática comum, principalmente, no nordeste, leste e oeste do continente africano. Em geral, as fontes de pesquisa indicam 29 países africanos, mas de acordo com o meu levantamento, este número é superior, totalizando em 31 nações, como a Somália, Etiópia, Egito, Senegal, Burundi, Sudão, Gana, Congo, Camarões, Mauritânia, Quênia, Líbia, Tanzânia, Libéria, Burquina Faso, Níger, Malauí, Moçambique, Angola, Costa do Marfim, Serra Leoa, Guiné-Bissau, República Africana Central, Mali, Nigéria, Uganda, Togo, Benim, Chade, Gâmbia e Libéria.

Cerca de 18 destes países já consideram e classificam a MGF como crime. No entanto, mesmo tendo uma instrumento legal sobre esta tradição, isso não impede que a sua prática ocorra, principalmente, de forma clandestina.

Na Ásia, a Mutilação Genital Feminina também é praticada e consiste numa tradição cultural em países do Oriente Médio e do Sudeste asiático, sobretudo, naqueles que professam o islamismo.

Pode até parecer um absurdo, mas na Europa há também registro desta prática. A sua ocorrência não tem nada a ver com a cultura européia, pelo contrário! Esta, na verdade, reflete os traços culturais das comunidades de imigrantes, principalmente, de origem africana.

Só para se ter uma ideia, estima-se que cerca de 500.000 mulheres na Europa sejam submetidas à mutilação genital ou sejam ameaçadas de tal remoção.

Em alguns países há uma legislação específica para a proibição da prática de MGF, como nos da Grã-Bretanha, a França, Espanha, Dinamarca, Itália, Suécia, Áustria, Noruega, Bélgica e Chipre. Diversas Campanhas promovidas por ONGs (Organizações Não-Governamentais) e entidades oficiais, com o apoio dos governos são promovidas na tentativa de coibir e proibir a sua prática entre os imigrantes.

No mundo todo, a estimativa é bem assustadora ... cerca de 150 milhões de mulheres, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com a Declaração conjunta da Organização Mundial de Saúde (OMS) e a UNICEF, publicada em 1997, a Mutilação Genital Feminina (MGF) é uma prática de origem cultural ou outras não-terapêuticas, que consiste em uma intervenção, no qual o órgão genital da mulher é parcialmente ou totalmente removido ou lesionado (ferido).

No referido documento, as Agências da Organização das Nações Unidas (ONU), citadas, distinguem e relacionam os diferentes tipos de Mutilação Genital Feminina, a saber:

I. Excisão (remoção) do prepúcio ou de parte ou da totalidade do clitóris (clitoridectomia);

II. Excisão do clitóris, com parcial ou total excisão dos lábios menores (excisão);

III. Excisão de parte ou de todos os órgãos genitais externos (infibulação). A abertura genital é costurada, deixando um pequeno orifício capaz de permitir a passagem da urina e do fluxo menstrual;

IV. Sem classificação: inclui punção, perfuração, corte, alongamento do clítoris ou dos lábios, bem como queimar introduzir substâncias corrosivas ou ervas na vagina.

Os tipos I e II são mais comuns. Cerca de 80% das mulheres submetidas à MFG passaram por esses procedimentos.

A cicatriz na vagina resultante da prática de infibulação é aberta antes do coito ou do parto, provocando mais dores nas vítimas.

As justificativas empregadas na defesa da referida tradição cultural são distintas, podendo ser por razões religiosas, sociais, higiênicas, psicológicas e, até, preventivas, exemplificando:

I. Psico-sexuais: a remoção do clitóris implica na proteção da castidade e assim valorizar a mulher perante à comunidade;

II. Religiosas: baseia-se na crença da pureza da mulher, na qual concebe que seus órgãos genitais contribuem negativamente para a sua formação. Outro argumento é que as mulheres que não passam pela excisão não podem ser muçulmanas (devoção ao islamismo);

III. Sociológicos: consistem em atos de iniciação e passagem para a idade adulta, bem como de inibição da libido;

IV. Higiênicos: baseados na concepção de que os órgãos genitais femininos exteriores são “sujos”.

Havendo, ainda, a crença em que a mutilação genital feminina reduz significativamente a probabilidade de que a mulher tenha vários parceiros, o que diminuiria os riscos de infecção pelo HIV (AIDS), já que os números de pessoas infectadas pelo vírus é elevado e alarmante no continente africano.

Em geral, tais procedimentos são cometidos, principalmente, por parteiras, mulheres idosas da comunidade, babeiros, curandeiros, médicos e enfermeiras. O material empregado na remoção variam, podendo ser facas, lâminas (giletes), pedaços de vidros, pequenos troncos de árvore, espinhos, folhas e ervas etc.

As consequências desta prática são previsíveis, não? Além da discriminação, humilhação e outros sentimentos que possam abalar o lado emocional da mulher, a MGF por ser uma prática extremamente perigosa, realizada – na maioria das vezes - sem ou com o mínimo de condições higiênicas, bem como pelo uso de material não esterilizados, envolvendo outros riscos, tais como: dores constantes e permanentes, contaminação, hemorragia, transmissão do HIV/AIDS, complicações futuras durante o parto, entre outras.

Um caso a ser destacado, neste contexto, é a história de vida da ex-modelo e embaixadora da ONU especial para a eliminação da Mutilação Genital Feminina, Waris Dirie, que aos 5 anos de idade foi submetida a esta prática desumana em seu país de origem, Somália.

Aos 13 anos, ela foi obrigada a casar com um homem bem mais velho (60 anos). Fugiu e chegou a Londres, onde trabalhou como doméstica e na rede McDonald's.

Seu ingresso na carreira de modelo (top model) aconteceu após ter sido descoberta pelo fotógrafo britânico Terence Donovan. Na época, Waris Dirie tinha 18 anos e, em pouco tempo, virou uma celebridade internacional.

Ela também é a fundadora Waris Dirie Foundation, instituição que luta para acabar com esta tradição, divulgando e conscientizando as pessoas sobre a prática e suas diversas sequelas. A Fundação também orgniza eventos e programas educacionais, além de fornecer apoio às vítimas de MGF.

Este ano, ela veio ao Brasil, como convidada e madrinha do camarote da Brahma em São Paulo.
Sua história de vida pode ser lida no Waris Dirie Foundation.


Waris Dirie (Contigo)



"Futebol é um negócio que gera dinheiro para si próprio.

A verba arrecadada dificilmente é revertida em ações para

o combate à fome ou à pobreza.

Além do mais, o mundo conhecerá uma África

que foi embelezada,

e não o verdadeiro continente"

Waris Dirie, 2010

Fontes de Consulta:

. Ciência Hoje

. Contra Capa

. Estadão

. Opinião e Notícias

. Plus News

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