domingo, 20 de junho de 2010

Crônica: Um Sonho Ecológico


Imagem capturada na Internet (Fonte: 3ª Compª Comandos Mocambique)




UM SONHO ECOLÓGICO

João Justino Leite Filho

Eu via o pôr-do-sol e meu lado criança entendia que o sol era uma pipa que estava sendo recolhida do céu por alguém que havia brincado o dia inteiro.

Minha imaginação permitiu que eu fosse uma gaivota e tentasse acompanhar o espetáculo, de cima. Então, me senti de asas abertas, desafiando o vento e ganhando altura.

Quando escureceu de vez fui coruja e pela primeira vez pude ver na escuridão. De manhã, eu, andorinha em vôos rasantes, passei a centímetros de prédios, antenas, telhados…

Uma chuva me surpreendeu e, encharcado, mergulhei no oceano. Fui golfinho, polvo, fiz parte de cardumes, pesquisei as profundezas do mar, descobri cavernas, montanhas. Desafiei meus limites como baleia e fiquei encalhado na praia.

Sendo tartaruga me libertei da areia e fui lentamente caminhando em direção à mata, tomei banho de sol como crocodilo, fui ganhando patas ágeis, corpos flexíveis. Fui leopardo, tigre, antílope. Acho que tive o pescoço mais comprido do mundo, depois brinquei com a minha tromba, pensei em me ver no espelho e fiz muitas macaquices.

Dancei nos desertos como avestruz e, porque a sede bateu, fui camelo e me saciei no meu próprio reservatório.

Dei sustos, quando fui hipopótamo, brinquei bastante como foca, vivi bons momentos com rinoceronte e fico emocionado quando me recordo da minha vida de chinchila nas montanhas do Peru e do Chile.

Migrei como cegonha, vi Deus nos nascimentos.

O frio e o cansaço fizeram de mim um urso sonolento se preparando para hibernar. Dormi o mais longo dos sonos e acordei pensando em continuar experimentando vidas irracionais.

Só que meu lado racional me mostrou os riscos que eu havia corrido.

Os homens podiam ter acabado com a minha vida de hipopótamo, interessados na minha pele e no marfim dos incisivos. Podiam ter me fuzilado em plena dança de avestruz, visando minhas longas penas brancas para fazerem enfeites.

Se me encontrassem como foca, ou me matariam para confeccionar roupas esportivas com a minha pele, ou me levariam para fazer gracinhas que dão dinheiro. Minha preciosa vida podia ter sido abreviada por um arpão.

Pobre de mim se tivessem me visto como chinchila, como leopardo, como irracional.
Corri sérios riscos de ser enjaulado, engaiolado, castrado, embalsamado. Como cegonha eu estaria migrando para o fim.

Por segurança, fui me levantando como ser humano e meu lado realista me disse: Muito cuidado com os homens!


Fonte: Blog do Prof. Rafael Porcari

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