quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Entendendo os Reflexos do Terremoto no Chile em Terras Brasileiras



Imagem capturada na Internet para fins ilustrativo
Fonte: UOL Notícias Internacional (Foto: Ivan Alvarado/Reuters)

A melhor sensação que um professor pode ter é quando um aluno demonstra, por iniciativa própria, que aprendeu a matéria ou quando ele consegue fazer - no caso da minha disciplina (Geografia) - a correlação entre o tópico abordado em sala de aula com a reportagem do telejornal, por exemplo. E isso aconteceu...

Alguns alunos, tanto do Ensino Fundamental II quanto do Ensino Médio, assistiram os noticiários na TV e, no dia seguinte, me procuraram para comentar sobre o forte terremoto ocorrido no Chile, no dia 16/09, o qual foi sentido em São Paulo e em outras cidades brasileiras.
 
Como já havíamos visto este conteúdo em sala de aula, o que mais foi enfatizado por eles foi o fato dos tremores terem sido sentidos aqui, no Brasil.

O terremoto no Chile, de magnitude 8,3 graus, foi no mar e ocorreu à noite, próximo à região de Valparaíso, a 232 km de Santiago (capital do país) e a 55 km a oeste da cidade de Illapel.

 Imagem capturada na Internet para fins ilustrativo
 
Logo depois, um alerta de tsunami obrigou que um milhão de pessoas deixasse suas residências na área costeira (Pacífico), onde as ondas atingiram 4,5 metros de altura. O mesmo alerta foi transmitido ao Peru, ao Havaí (EUA), Califórnia (EUA) e até à Nova Zelândia.
 
De acordo com os dados divulgados nas mídias, o terremoto causou a morte de oito pessoas. Após o forte terremoto foram registradas, pelo menos, 20 réplicas, sendo algumas de magnitude 6 graus.
 
Tremores foram sentidos em alguns estados brasileiros, como em São Paulo, os quais foram registrados na capital e, também, nas cidades de Guarulhos, Osasco, Campinas e Santos. Além destas cidades houve registro nas cidades de São José (Santa Catarina), Fortaleza (Ceará), Belém (Pará), Porto Alegre e Santa Maria (Rio Grande do Sul), bem como em municípios dos estados de Minas Gerais e do Maranhão.
 
Os tremores foram de baixa intensidade e, por isso, não houve registro – em nenhuma das cidades brasileiras atingidas - de danos materiais e nem de pessoas feridas.
 
Em geral, o termo terremoto é empregado quando o abalo sísmico é de grande magnitude. Já a expressão sismo é usada para qualquer vibração ou tremor de terra. 
O Hipocentro ou foco do terremoto se localiza no interior da crosta terrestre e este consiste na fonte de onde partem e se propagam as ondas sísmicas. Já o Epicentro é o ponto da superfície terrestre, onde os efeitos do mesmo vão ser sentidos e desencadeados. O Epicentro se localiza diretamente sobre o Hipocentro.
O epicentro do terremoto que ocorreu no Chile foi localizado a 71 Km da cidade de Illapel, na Província de Choapa, ao norte de Santiago, capital do país.
 

Imagem capturada na Internet para efeito ilustrativo
 
Outros conceitos que devemos distinguir são: magnitude e intensidade dos terremotos, pois ambos possuem concepções distintas.

A magnitude é uma medida quantitativa do tamanho do terremoto, estando relacionada à energia sísmica liberada no foco (Hipocentro) e a amplitude das ondas vibratórias, que se deslocam do Hipocentro ao Epicentro.

O aparelho usado para medir a magnitude dos sismos é denominado de sismógrafo. Este tem por base as ondas sísmicas que se propagam a partir do ponto de origem (Hipocentro).

A escala utilizada para quantificar a magnitude local é a Escala Richter. No seu início, a Escala era graduada de 0 a 9, mas após a ocorrência de terremotos de magnitude superior a este grau, a mesma passou a ser considerada "Escala aberta" de Richter.

Já a intensidade sísmica é uma medida qualitativa dos efeitos do terremoto na superfície terrestre. Esses efeitos são avaliados a partir da observação "in loco" tanto em termos de danos ambientais quanto de perdas humanas e materiais (construções).

Na classificação da intensidade dos terremotos, ou seja, dos seus efeitos na superfície terrestre, é utilizado a Escala de Mercalli Modificada, sobretudo no Ocidente, a qual possui 12 graus (em algarismos romanos).
Ainda, vale ressaltar que a intensidade sísmica nem sempre tem correlação direta com a magnitude do abalo sísmico, pois um forte terremoto pode ter - tanto uma alta intensidade quanto baixa, assim como um terremoto de menor magnitude, também.
 
Na verdade, o grau da intensidade dos sismos vai depender da ocorrência de outros fatores (internos e/ou externos), a saber:
 
- Profundidade Focal (distância entre o Epicentro e o Hipocentro);
 
- Distância Epicentral (distância angular entre o foco e a estação sismológica que registrou o sismo);

- Estrutura geológica da área afetada, com disposição ou não de relevo na região (podendo haver deslizamento de terra e soterramento de áreas habitáveis);
 
- Qualidade das construções civis (edificação com material de baixa qualidade é mais susceptível a desmoronar).
 
A falta de planejamento por parte das autoridades competentes, a inexistência de uma Estação Sismológica local ou próxima (monitora os sismos) e, até mesmo, as condições socioeconômicas agravam a situação nestas áreas de maior instabilidade tectônica, sujeitas a abalos sísmicos e vulcanismo constantes.
 
Para ilustrar bem esta situação, basta comparar a intensidade (os efeitos) do terremoto que ocorreu em dois países distintos, o quais se caracterizam por condições socioeconômicas desiguais: o Haiti (país latino-americano, subdesenvolvido) e o Japão (país asiático, desenvolvido), vejamos:

HAITI
. Data do Terremoto: 12/01/2010
. Magnitude: 7,0 (Escala Richter)
. N˚ de Mortos: 200 mil
 
JAPÃO
. Data do Terremoto: 10/03/2011
. Magnitude: 8,9 (Escala Richter)
. N˚ de Mortos: 13 mil
 
Os que eles têm em comum é a localização próxima à borda da placa tectônica de limite convergente com outra placa, configurando-se assim em áreas de grande instabilidade tectônica. E um dos aspectos que eles têm em incomum, já mencionado acima, é a condição socioeconômica discrepantes de ambos.

O Haiti, considerado o país mais pobre do continente americano, não investe em medidas preventivas e/ou mitigadores aos efeitos de um terremoto. E para piorar, por ocasião do terremoto de 2010, o seu Epicentro foi em uma área populosa e pobre (construções precárias) e nada mudou, praticamente, em termos de sua reconstrução e melhorias.
 
Já o Japão, que faz parte do Grupo dos 7 países mais ricos do mundo (G7), investe em prevenção aos abalos sísmicos naturais. E, embora, os investimentos sejam altos em termos infraestrutura, como sistema de molas (espécie de amortecedor) nas fundações dos prédios mais modernos para absorver o abalo por ocasião dos sismos, os fenômenos tectônicos e seus efeitos são sempre imprevisíveis e sinalizam perigo.
 
Desde 1981, a legislação japonesa determina que toda e qualquer construção a ser erguida precisa ter uma fundação resistente a fortes terremotos. As edificações mais antigas, anteriores à publicação da referida Lei, são aconselhados a reforçar as suas estruturas. O Governo contribui diretamente com parte das reformas.
 
Mapa-Múndi com a disposição das Placas Tectônicas
Imagem capturada na Internet (Fonte: Eco4u)

Para entender a origem dos terremotos e outros fenômenos tectônicos associados é preciso compreender a dinâmica interna da Terra e os movimentos das placas tectônicas.
 
Como é possível verificar na imagem acima (mapa), a superfície terrestre se encontra fragmentada em “pedaços”, de diferentes tamanhos. Na verdade, esses “pedaços” são as chamadas placas tectônicas. Estima-se que sejam 15 placas tectônicas, ao todo, as quais se encontram em constante movimento. 
 
Sob este contexto, vale relembrar a diferença entre crosta terrestre e litosfera, uma vez que as placas tectônicas são fragmentos da litosfera e não da crosta, apenas.
 
A crosta terrestre é a camada sólida da Terra, constituída por rochas e minerais. Ela é subdividida em crosta continental e crosta oceânica. Já a litosfera é constituída da crosta terrestre juntamente com a parte superior do manto.
 
Abaixo desta tem-se o manto inferior, que é bem mais quente (com temperaturas chegando até 870º C), o qual é chamado de astenosfera (esfera sem força, de baixa velocidade). É sobre a astenosfera que as placas tectônicas se movimentam 
 
As responsáveis pela movimentação das placas tectônicas são as correntes de convecção do magma. O magma ao extravasar na superfície afasta uma placa da outra, as quais vão ser direcionadas em sentidos contrários. Se de um lado, as placas se afastam, no outro lado, elas se encontram com outra placa.
 
Com isso, o movimento das placas tectônicas pode ser divergente, quando uma placa se afasta da outra (como foi o caso da placa Sul-Americana em relação à placa Africana) e convergente, quando o contato da placa com a outra se faz por colisão, subducção e deslizamento lateral.
 
Movimento divergente das placa Sul-Americana e a Africana
Imagem capturada na Internet para efeito ilustrativo
  (Em nota, a fonte explica que as cores vermelhas
assinalam as áreas onde foram encontrados 
os mesmos tipos de rochas e fósseis)  
 
 
As áreas de convergência de placas tectônicas caracterizam-se por maior instabilidade tectônica, onde se verifica a grande ocorrência de vulcanismo, abalos sísmicos (terremotos e maremotos), formação de cadeia de montanhas dobradas, fossas submarinas etc. 

Nesse movimento divergente, a placa Sul-Americana se move, em média, três centímetros para o oeste, enquanto a placa Africana se movimenta no sentido leste, sob a mesma medida. Com isso, verifica-se um maior distanciamento entre os continentes, a expansão do fundo oceânico e do oceano Atlântico. Este, por sinal, se expande cerca de seis centímetros por ano.

Enquanto, a placa Sul-Americana se afasta da placa Africana, a sua borda a oeste se encontra em movimento convergente à placa Nazca. O contato entre ambas é por subducção. E é, justamente, nesta borda (oeste) que se encontra localizado o Chile (assim como outros países sul-americanos).

Por ser uma área de convergência de placas (encontro), toda a costa pacífica da América do Sul é caracterizada por uma grande instabilidade tectônica, sujeita a terremotos de magnitude elevada, cuja intensidade também pode ser alta e, por isso, ter um efeito devastador na superfície (perdas materiais e humanas, entre outros aspectos).
 
Imagem capturada na Internet para efeito ilustrativo


Daí, a ocorrência – em seu território – de atividades vulcânicas e abalos sísmicos (terremotos e maremotos), sem esquecer da disposição da Cordilheira dos Andes, que é um exemplo de Dobramento Moderno, gerado pelo contato de ambas placas tectônicas.

 Imagem capturada na Internet para efeito ilustrativo
Fonte: Wikipédia
 

No caso de movimento convergente ser do tipo colisão, o exemplo a ser destacado é o encontro das placas Indo-Australiana e a Euroasiática, que causou a formação da Cordilheira do Himalaia, onde está localizado o pico culminante da Terra, o Monte Everest (8.848 m).


Imagem capturada na Internet para efeito ilustrativo
Fonte:
(Imagem modificada no Adobe Photoshop)

 
No caso do contato por deslizamento lateral, as duas placas tectônicas se movimentam em direções opostas, ao longo de um sistema de falhas, denominadas de "falhas transformantes".
O exemplo clássico de deslizamento lateral é o que ocorre ao longo da Falha San Andreas, na região costeira da Califórnia (EUA), envolvendo a placa Pacífica (a oeste) e a placa Norte Americana (a leste).
Imagem capturada na Internet e modificada (Adobe Photoshop)
  para efeito ilustrativo. Fonte: Geografalando
 
No caso do nosso país, o movimento vinculado à borda leste da mesma (porção junto ao oceano Atlântico) é divergente, ou seja, a placa Sul-americana está em movimento de afastamento da placa Africana. Daí, estarmos em uma situação de estabilidade tectônica.
 
Mas, ao contrário do que muitos pensam, as ocorrências de terremotos em nosso país não são raras. Eles ocorrem, sim, mas são de baixa magnitude e intensidade. Na maioria das vezes, os efeitos (intensidade) na superfície são imperceptíveis ao homem.
 
A não ocorrência de terremotos de grande magnitude e intensidade devido a dois fatores, que lhe imprime esta certa estabilidade tectônica, a saber:

- A localização geográfica do nosso território, mais ou menos, no meio da placa Sul-Americana, isto é, em região intraplaca, distante das bordas da mesma;
-  O movimento divergente (afastamento) da placa Sul-Americana em relação à placa Africana.
Como já comentei com as turmas, o Brasil teve um único caso de morte provocada por efeito de um terremoto. Isso aconteceu, em novembro de 2007, na cidade de Itacarambi (Minas Gerais), quando a parede de um quarto caiu em cima de uma cama, matando uma criança de 5 anos, que dormia naquele momento. De acordo com o que foi publicado na ocasião, o material de construção era de baixa qualidade.

Segundo o pesquisador Marcelo Bianchi, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), os tremores sentidos em nosso país foram reflexos da movimentação das placas tectônicas ocorrida no território chileno.

 

Fontes de  Pesquisa
 

. DOURADO, Carlos: Introdução à Sismologia. UNESP

 
 
. Material didático (particular)
 
 
 

Um comentário:

josé Luiz Silveira Barbosa disse...

Muito interessante a sua matéria professora.
No japão quase todos os anos acontece esse terremoto porque o Japão se situa em uma área de zonas sísmicas e por isso que as infraestruturas do país são especialmente desenhadas para suportar os tremores.