sábado, 21 de novembro de 2015

20 de Novembro: Dia da Consciência Negra (Atividade Dirigida) - Parte I

 Imagem capturada na Internet
 
 
Para não cair na mesmice de sempre e, também, por encontrar-me na elaboração de outros artigos, inclusive, cobrados por alguns alunos, eu não poderia deixar de mencionar acerca da data de ontem, na qual se comemorou o Dia da Consciência Negra.

Data esta que não deveria ser uma específica, mas de reflexão todos os dias. Assim como, não deveria ser chamada “Consciência Negra”, pois o seu sentido é dúbio, podendo ser interpretada como um direcionamento ao negro quanto ao conhecimento de seu papel e importância na sociedade brasileira. E antes do que qualquer outro grupo de cor distinta (branca, indígena, parda e amarela), acredito que eles sabem muito mais do que estes acerca de sua importância na sociedade.

O que falta mesmo é o tripé a ser estabelecido com base no reconhecimento, na valorização e no fim do preconceito.

Como professora regente, eu repudio todas as formas de preconceito e de discriminação, onde quer que ela seja vivenciada e demonstrada. E, a escola – enquanto espaço de grande diversidade cultural – é o ambiente onde mais se manifestam estes tipos de comportamento e, ao mesmo tempo, torna-se o lugar comum para discuti-los.

O preconceito tem várias facetas, baseado em uma relação humana, desigual, marcada por um indivíduo que se acha superior em detrimento a outro que, em geral, faz parte de um grupo minoritário, isto é, em menor número.

Já a discriminação consiste na ação, isto é, na atitude movida pelo preconceito. E é justamente sob estes dois conceitos (preconceito e discriminação racial) que gostaria de tratar a data comemorativa, em questão, compartilhando uma atividade que realizei no C.E. Profª Sonia Regina Scudese, no âmbito do Projeto Étnico-Racial da Unidade Escolar, em um dia de “Sábado Letivo”.

A referida atividade teve por base trabalhar uma letra de música contextualizada, visando não só a leitura e a interpretação da mesma, como também ascender discussões acerca do preconceito racial, sobretudo, aquele que se configura velado e, não, explícito.

Vale ressaltar, ainda, que a mesma fez parte do Projeto “Canto o que não Silencia”, o qual desenvolvi na E.M. Dilermando Cruz e que consistia em trabalhar letras de músicas contextualizadas a questões políticas, sociais, econômicas, ambientais e culturais (leitura e interpretação).
 
Sendo assim, no contexto do Projeto Étnico-Racial do C.E. Profª Sonia Regina Scudese, a música selecionada foi “O Meu Guri”, composta por Chico Buarque (lançada em 1976).

 
A riqueza de sua letra nos leva a traçar detalhes acerca das condições de vida da mãe, antes e após o nascimento do “Meu Guri” e, sobretudo, as atividades que ele pratica no papel de provedor da família. E, ainda, por meio da representação em desenho e descrição do perfil do “Meu Guri”, por cada aluno, é possível traçar a linha de debate para as questões raciais e para o preconceito racial. Mesmo para aqueles que afirmam que não são preconceituosos.
 
A diversidade étnico-racial do nosso país é algo incontestável, tendo em vista a grande miscigenação na formação da sociedade brasileira, com a união entre diversos grupos humanos, como os indígenas (nativos do nosso país), os brancos (colonizadores europeus), os negros (africanos que foram traficados na condição de mão de obra escrava), os amarelos (imigrantes) e tantos outros povos imigrantes que para o nosso país vieram e fixaram residência definitiva.  
 
Em razão disso, a temática em si é de uma riqueza ímpar na compreensão da formação histórica do povo brasileiro. Todavia, entre estes grupos citados e, dentre as diversas facetas do preconceito racial, o grupo negro é – sem dúvida nenhuma – um dos que mais sofre preconceito e discriminação em nossa sociedade.
 
E, levando em conta que o ambiente escolar, por ser um espaço de grande diversidade cultural, social e étnico, reproduz comportamentos desiguais, sob um falso conceito de relação de superioridade x inferioridade, marcada sobretudo pela intolerância ao grupo de alunos negros (cor preta e parda), discutir estas atitudes discriminatórias e, ao mesmo tempo, promover debates acerca da importância de cada um na constituição e no retrato fiel do nosso povo (e de sua cultura) ganham dimensões concretas, capazes de atenuar ou, pelo menos inibir, tais comportamentos inconcebíveis nos dias de hoje.
 
Ainda, neste contexto, não devemos esquecer que há mais de 12 anos, o Governo Federal tornou – através da Lei 10.639/2003 - a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira no currículo escolar do Ensino Fundamental e Médio.
 
Apesar de seu reconhecimento tardio, a legislação em questão assinalou um grande avanço nas discussões acerca da contribuição e do papel do negro na história e na pluralidade cultural do nosso país. E, mais do que nunca, que estas discussões necessitam perpassar pelo combate à discriminação racial, agressiva, escancarada e/ou velada.
 
Sendo assim, a escolha da atividade – em questão - foi mais que uma proposta pedagógica, voltada para leitura e interpretação de letra de música, foi uma tomada de decisão para trabalhar efetivamente a cidadania, o respeito à pluralidade étnico-racial do país e, também, debater o racismo, sobretudo, o velado. 
 
Os Procedimentos Metodológicos adotados perpassaram pelas seguintes etapas:
 
. 1ª Etapa: Leitura da letra da música selecionada (cópia reproduzida para cada aluno e leitura individual);
 
. 2ª Etapa:  Audição e canto da música (acompanhando a mesma a partir do uso de equipamento eletrônico, por duas vezes);
 
. 3ª Etapa:  Análise e reflexão crítica da letra da música por meio da realização de Atividade Dirigida (questões pertinentes à interpretação da música em folha reproduzida para cada aluno);
 
. 4ª Etapa: Reprodução do agente principal da música por meio de desenho e descrição do seu perfil (desenho do "O Meu Guri" em folha de Papela A4 e colorido com lápis de cor, tal como cada aluno o imaginou, assim como a descrição de seu perfil);
 
. 5ª Etapa:  Apresentação individual dos resultados (desenho e perfil) para a turma;
 
. 6ª Etapa:  Análise final e discussões em grupo, contextualizando a letra da música de acordo com a sua significância real e, posteriormente, com as interpretações feitas pelos alunos;
 
. 7ª Etapa: Exposição dos trabalhos no Mural da Unidade Escolar, tendo a atenção de agrupar os diferentes desenhos do “O Meu Guri” de acordo com a cor definida por eles, ou seja, no caso desta atividade, foram as seguintes: preta, parda e branca.
 
A minha contribuição no Mural foi apresentar a letra da música, destacando a análise dos fatos conexos a esta.
 
Quanto aos resultados, como era de se esperar, a grande maioria concebeu “O Meu Guri” de cor preta, embora a música – em nenhum trecho de sua letra – deixa esta característica de forma explícita. A cor parda apontou como segunda opção e, apenas quatro alunos, desenharam “O Meu Guribranco.
 
Vale lembrar, ainda, um outro aspecto direta e/ou indiretamente associado à determinação da cor do perfil do “Meu Guri”, que foi a sua condição social, família em situação de vulnerabilidade social (pobreza e extrema pobreza).
 
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Observação: Em razão da extensão do presente texto, continuarei o mesmo em outra publicação (Parte II).

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