domingo, 11 de junho de 2017

Crônica: Dia dos Namorados

Imagem capturada na Internet
Fonte: BrasilEscola

 

NAMORO
Luís Fernando Veríssimo* 

O melhor do namoro, claro, é o ridículo. Vocês dois no telefone:

- Desliga você.
- Não, desliga você.
- Você.
- Você.
- Então vamos desligar juntos.
- Tá. Conta até três.
- Um...Dois...Dois e meio...
 
Ridículo agora, porque na hora não era não. Na hora nem os apelidos secretos que vocês tinham um para o outro, lembra?, eram ridículos. Ronron. Suzuca. Alcizanzão. Surusuzuca. Gongonha. (Gongonha!) Mamosa. Purupupuca...
 
Não havia coisa melhor do que passar tardes inteiras no sofá, olho no olho, dizendo.

- As dondozeira ama os dondonzeiro?
- Ama.
- Mas os dondonzeiro ama as dondonzeira mais do que as dondonzeira ama os dondonzeiro.
- Na-na-não. As dondonzeira ama os dondonzeiro mais do que etc..

E, entremeando o diálogo, longos beijos, profundos beijos, beijos mais do que de língua, beijos de amígdalas, beijos catetéticos. Tardes inteiras. Confesse: ridículo só porque nunca mais.

Depois do ridículo, o melhor do namoro são as brigas. Quem diz que nunca, como quem não quer nada, arquitetou um encontro casual com a ex ou o ex só para ver se ela ou ele está com alguém, ou para fingir que não vê, ou para ver e ignorar, ou para dar um abano amistoso querendo dizer que ela ou ele agora significa tão pouco que podem até ser amigos, está mentindo. Ah, está mentindo.
 
E melhor do que as brigas são as reconciliações. Beijos ainda mais profundos, apelidos ainda mais lamentáveis, vistos de longe. A gente brigava mesmo era para se reconciliar depois, lembra? Oito entre dez namorados transam pela primeira vez fazendo as pazes. Não estou inventando. O IBGE tem as estatísticas.
 
                             *Correio Braziliense. 13/06/1999

3 comentários:

Tam Carvalho disse...

Amo esses tipos de textos. Cada um tem uma forma de expressar sua opinião a respeito do amor de formas diferentes, mas ao mesmo tempo parecem ser tão iguais.
Tamires Carvalho/1008 (SCUDESE)

Marli Vieira de Oliveira disse...

Que bom, Tamires! Eu também gosto muito de crônicas. Na verdade, gosto de tudo: poesia, crônicas, letras de músicas contextualizadas etc. Um grande beijo

Ca Booom disse...

Esses textos são interessantes por expresar sentimento , afeto , opiniões diferentes e etc.
Como a Tamires falou que mesmo que mesmo sejam diferentes pareçam tão iguais e etc . Gostei muito da postagem muito interessante.
Pablo cespres Tavares (2006)