segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Resultado do Plebiscito na Colômbia exige Nova Rede de Negociações em Busca da Paz Perfeita

Apoio ao acordo de paz na Colômbia
Imagem capturada na Internet
Fonte: Público


"Eu vou a luta,
eu vou armado de coragem e consciência
Amor e esperança
A injustiça é a pior das violências
Eu quero paz, eu quero mudança.

Dignidade pra todo cidadão
Mais respeito, menos discriminação
Desigualdade, não. Impunidade, não
Não me acostumo com essa acomodação."
(Paz, Gabriel Pensador)


A proposta de negociar a paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) não é recente e, embora, tenha iniciado desde 1983, durante os governos dos presidentes Belisario Betancur (1982 e 1986), César Gaviria (1990 a 1994) e de Andrés Pastrana (1998 a 2002), todas essas tentativas de um acordo definitivo com a guerrilha fracassaram.

No entanto, em 2012, elas foram retomadas em Havana (Cuba) e, após esses  quatro anos de negociações foi assinado, no último dia 26 de setembro, em Cartagena de Índias (Colômbia), um acordo histórico entre o governo colombiano e as FARC, colocando o fim ao conflito armado instalado no país desde 1964 (há 52 anos).

A guerrilha surgiu de um levante camponês, conduzido por um grupo de liberais armados e liderado por Pedro Antonio Marín, seu fundador (mais conhecido como "Tirofijo" ou Manuel Marulanda Véles), em Marquetalia, na região de Tolima, quando estes tentavam conter o Exército colombiano em suas ações militares sobre uma comunidade autônoma de camponeses que existia na referida localidade.

Imagem capturada na Internet
Fonte: El Diario

A ratificação do acordo de paz pela população colombiana selaria o fim da maior e a mais antiga guerrilha da América do Sul e de toda a América, cujo conflito responde por diversos sequestros e por mais de 220 mil mortes, sem falar das dezenas de desaparecidos e a migração forçada de milhões de campesinos (camponeses rurais).

O referido acordo selaria não só o fim do conflito como, também, conferiria novas perspectivas ao país em diferentes áreas (política, econômica, social etc.). Além disso, o referido acordo previa atender seis pontos, os quais permeavam a reforma rural, a participação política dos membros da Farc (no caso, os ex-integrantes poderiam formar um partido e concorrer às eleições locais e/ou nacionais), o cessar-fogo definitivo (de ambas as partes), a solução quanto ao problema das drogas ilícitas (cocaína e heroína, por exemplo), a indenização às vítimas da guerrilha e mecanismos de implementação e verificação.

O uso do verbo no futuro do pretérito é proposital, uma vez que o acordo, embora tenha sido assinado por ambas as partes, não se firmou diante do último acontecimento.

De acordo com o que foi acertado entre ambas as partes, o acordo de paz firmado ainda deveria ser submetido e endossado pela população colombiana via plebiscito, o qual foi realizado, ontem, dia 02 de outubro.


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E, para surpresa de muitos, o resultado da votação não foi condizente com as pesquisas preliminares que apontavam a vitória do “sim” à assinatura do acordo.

Com 50,24% dos votos, a proposta de reconciliação e de paz entre ambas as partes foi rejeitada pela população colombiana, que - em número reduzido - compareceu para votar. De acordo com as últimas notícias, a alta abstenção nas urnas foi uma das mais altas da história do país, já que 63% dos eleitores não participaram do plebiscito.

Mas, tal como a letra da música “Paz”, de autoria de Gabriel, O Pensador, Thiago Mocotó e Lenine menciona e, também, segundo a opinião de diversos analistas políticos, a impunidade foi um dos fortes fatores a ter pesado na rejeição popular, uma vez que os membros das Farc não teriam uma reclusão tradicional, ou seja, muitos teriam seus movimentos limitados e vigiados, sem a necessidade de irem para uma prisão normal.

Além da impunidade que margeia a proposta de reconciliação entre o governo colombiano e as Farc, ambos também são impopulares, ou seja, a população colombiana se mostra avessa às Farc pela responsabilidade de diversos assassinatos, estupros, massacres e outras formas de violência praticados nesses anos todos e, ao governo, pela rejeição a sua política. Este último, inclusive, é acusado de ter coagido prefeitos a se posicionarem contrários às campanhas pelo “não” que circularam, no país, antes do plebiscito.


Manifestação popular contra o atual presidente colombiano
Juan Manuel Santos
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Fonte: G1 Globo (Foto de AFP Photo/Luis Robayo)

Além desses fatores, impunidade e rejeição popular em relação ao governo e às Farc, o fato da intenção da participação dos membros das Farc na política, com formação de partido e disputa eleitoral a nível local e/ou nacional também pesou na hora de decidir o voto. Para muitos, esse fator já consolida o sentido da impunidade.

De acordo ainda com os analistas políticos, a falta de empatia por parte da população das grandes cidades foi a principal responsável pelos altos índices de abstenção (mais de 60% dos eleitores) no dia da consulta popular (domingo), tendo em vista que o maior apoio à proposta de paz ocorreu na costa do país e nas regiões limítrofes, cuja densidade demográfica é significativamente menor e, com certeza, os que mais sofreram com as ações da guerrilha.

Mesmo a opção pelo “sim” também ter vencido em Bogotá (capital do país) e em importantes cidades, como Cali e Barranquila, outros grandes centros urbanos, como Medellín, Bucaramanga, Cúcuta e Pereira, a rejeição popular venceu nas urnas.

De acordo com a analista política, María Victoria Duque (O Globo, 3/10/2016, pag. 43):

As grandes cidades há muito tempo 
não sentem os efeitos do conflito
 e não conhecem a dor, 
o medo e a falta de liberdade da zona rural.
 Isso criou uma falta de empatia 
que se estendeu por décadas
 e se manifestou no referendo. ”  



Mapa assinalando as regiões com maior índice de
 "sim" (verde) e de "não" (vermelho) ao acordo
de paz entre o governo colombiano e as Farc
Imagem capturada na Internet

Com este alto índice de abstenção ao plebiscito, grande parte da população colombiana revelou-se indiferente à importância dessa questão política, mas – ao mesmo tempo e, em contrapartida – mostrou-se a favor da justiça social em face da rejeição à forma de impunidade que se criou em acatar as negociações com os integrantes das Farc.

Neste contexto, o analista de conflitos da Corporação Latino-americana Sur, Pedro Santana, além de destacar que houve diversos erros por parte do governo durante a campanha pré-plebiscito, enfatiza e defende que o acordo se tratava de uma proposta de negociação com as Farc e, não de um ato de rendição da guerrilha no campo de batalha.


Sendo assim, a assinatura do acordo de paz entre o Governo colombiano e as Farc não só selaria apenas o fim do conflito armado, como também o poder de diálogo aberto e de negociação pacífica entre o entrave "guerra versus paz", cabendo ao descarte, o primeiro que, sob a égide da forma de política de guerrilha (violência armada), tanto atravancou o desenvolvimento do país e provocou tantos massacres e mortes. Enquanto, a paz deveria ser primazia para todo e qualquer cidadão que almeje o desenvolvimento, o fim da guerra e da guerrilha no país.  

Caravana colombiana contrária ao acordo de paz
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Fonte: Revista Veja (Foto de Felipe Caicedo/Reuters)


O resultado do plebiscito de ontem, na Colômbia, fez o sonho da Paz desmoronar-se, desfazendo as expectativas de muitos e lançando o país a um futuro cheio de incertezas e temeridades. Mas, esta situação também já era esperada pelo governo. 

No momento, o que importa é que, tanto do lado do governo quanto do lado das Farc, a direção é única e é da conciliação pela paz, com o fim definitivo da guerra e da guerrilha. Agora é aguardar uma nova rede de negociações, diálogos mais abertos e a busca de um acordo de paz perfeito, capaz de atender a todos os segmentos envolvidos, o governo, as Farc e a população colombiana, em geral.  

As Farc mantêm sua vontade de paz e reiteram sua disposição de usar apenas a palavra como arma de construção para o futuro”
                    (Palavras do chefe das Farc, Rodrigo Londoño Echeverri, o “Timochenko”)


Fontes de Consulta



. G1 Globo On line (várias edições)

. Jornal O Globo (várias edições impressa)


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