quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Aos Mestres, Sem Carinho - Zuenir Ventura

Achei super interessante o texto de Zuenir Ventura sobre as manifestações dos profissionais de Educação do Rio de Janeiro, ocorridas no dia 08 de setembro, quando houve - infelizmente - um incidente entre os profissionais da Educação com os policiais militares.

Os manifestantes foram recebidos com balas de borracha e bombas de efeitos morais. As imagens publicadas nas mídias mostraram a situação criada. Inclusive, eu publiquei aqui - neste espaço - as duas imagens referenciadas no texto. Vale a pena conferir o texto e a opinião de Zuenir Ventura a respeito do incidente e a educação no Rio de Janeiro.

O texto foi publicado na edição de hoje (16/09) do jornal O Globo (página 7). A imagem abaixo foi scaneada do próprio jornal.


Imagem capturada no Jornal O GLOBO (Seção Opinião, página 7, 16/09/09)



Entre as fotos publicadas na semana passada na primeira página do jornal, há duas, de Marcelo Piu, que eu elegeria como das mais emblemáticas e cujo título poderia ser "O passado bate à porta". Elas relembram uma cena comum nos anos de chumbo, quando reivindicações e manifestações de protesto, principalmente vindas de setores da inteligência, eram sempre reprimidas com violência. Numa, um PM apontando a pistola e pronto a disparar contra o inimigo parecia ter à sua frente um bando de baderneiros ou perigosos bandidos, e não profissionais com a missão, árdua e mal remunerada, de educar crianças em geral, inclusive os filhos dos que estavam atrás daquelas armas. Eram professores, onze dos quais saíram feridos, como aquele da outra imagem, que é carregado com um furo sangrando na coxa. Sei que a polícia alega que revidou a provocações, mas será que não teria sido possível dialogar com eles, antes do emprego de uma truculência mais adequada a um campo de batalha? Acho que sim, tanto que, no auge da confusão, alguns deputados conseguiram acalmar os ânimos, usando a conversa em vez do revólver, do cassetete e das bombas de efeito moral.

Não quero entrar no mérito da questão, já que os dois lados pretendiam ter razão — os professores com seu pleito de acrescentar mais uma merrequinha a um salário aviltante, e o governo alegando o impacto negativo que a medida causaria nas suas contas. Uma coisa, porém, ficou mais uma vez demonstrada: a manutenção da ordem urbana está entregue ao despreparo e ao desequilíbrio emocional da nossa polícia, que não sabe que essa não é a maneira de tratar qualquer classe, muito menos a dos professores. O governo estadual deveria dedicar um pouco mais de carinho aos nossos mestres. Sou do tempo em que as moças queriam ser "normalistas", isto é, fazer o curso de preparação para serem professoras. A carreira era muito disputada e exaltada em prosa e verso: "Vestida de azul e branco,/trazendo um sorriso franco/num rostinho encantador,/minha linda normalista/rapidamente conquista/meu coração sem amor" (Benedito Lacerda e David Nasser). Hoje, o magistério deixou de ser uma profissão convidativa. Calcula-se que só na capital há 16.800 tempos de aula vagos, o que significaria um déficit de 1.400 profissionais. Também!, além de ganhar pouco, professor no Rio, se for para a rua reclamar, corre o risco de apanhar.

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Pelo visto, o musical "O despertar da primavera", grande sucesso da estação, é capaz de continuar assim até o verão. Na noite em que fui assisti-lo, as palmas entusiasmadas de uma plateia composta majoritariamente de representantes da chamada terceira idade demonstravam que o espetáculo empolga não apenas os jovens, mas também e curiosamente os que estão sentindo ou já sentiram o despertar do outono.

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